sexta-feira, 27 de julho de 2012

PÁSSAROS QUE LATEM - CAPÍTULO XV

Do alto no ninho, sentado em posição de vigilância, o cão refletia acerca das consequências dos últimos acontecimentos, enquanto os passarinhos trabalhavam na reconstrução de seu lar. Sem qualquer aviso, som ou cheiro, uma presença inadvertidamente surgiu ao seu lado.
_ Olá, Mãe Natureza! É sempre um prazer revê-la – disse o cão, mantendo-se imóvel.
_ Olá, irmão-cão! – a Mãe Natureza levantou a cabeça, encheu os pulmões, e continuou – Ah, como estou feliz por voltar aqui! Estava com saudade da energia de seu ninho.
_ A senhora é sempre bem-vinda, Mãe, mas imagino que não tenha vindo apenas para nos agraciar com sua visita.
Ela sorriu e, afagando a orelha do cão, respondeu:
_ Você está certo. É chegada a hora de, mais uma vez, distribuir as missões e eu vim pessoalmente para lhe dizer que é a vez de um pássaro assumir o ninho. Você, meu querido cão, não é mais o Pássaro-mais-velho.


...
PÁSSAROS QUE LATEM – Capítulo XV
O segredo da Mãe Natureza

O cão reuniu seus protegidos no centro do ninho e explicou sobre os novos ares que estavam por vir. A anunciação foi interrompida quando alguns se levantaram e bateram suas asas de modo agitado:
_ Não é justo! A grande tempestade, para a qual fomos preparados desde o início, finalmente passou e agora que já estamos reestruturando o ninho vem um pássaro? Tudo parece em equilíbrio, mas ainda há muito a se fazer – disse o sabiá.
_ Será muito estranho ser aprendiz de um animal que não seja um cão – disse a aracuã.
Sabendo que não há outro modo de reagir às determinações da mãe natureza a não ser aceitar, a irmã-cadela se deitou e colocou a cabeça entre as patas. A irmã-suçuarana, anteriormente o gatinho inseparável e já há algum tempo um ser grande demais para o ninho, vira de costas e diz não aceitar. Ela adora os passarinhos, mas sente a necessidade de encontrar outros de sua espécie. O ninho já havia se tornado pequeno demais para ela e agora sente que não haverá mais razão para continuar ali.
E em meio a piados, grasnados e resmungos, o cão continou:
_ Eu também não entendo, meus pequenos. Depois de todos esses ciclos, de tantas chuvas torrenciais, ser um Pássaro-mais-velho tornara-se algo quase natural, mas as decisões da Mãe Natureza estão além de nossa compreensão e cabe a nós, como seus filhos, respeitá-la sem questionar.
_ Não há um porque de tanta comoção. – disse o pequeno filhote de coruja, com sua penujem destoando de seu olhar de sapiência, a qual vem mais de sua natureza do que de experiências vividas - Você não é um pássaro e merece ser mais do que um pássaro. Mas também não é mais um canídeo. Você ainda parece um cão, mas se tornou um outro ser e um dia irá mostrar ao vale que animal você se tornou.
O cão sorri:
_ Obrigado, minha pequena corujinha. Tenho a impressão de já ter ouvido suas sábias palavras em algum lugar. Meus passarinhos, toda mudança, de certa forma é positiva. Há certas coisas que apenas um pássaro é capaz de fazer e será bom que treinem certas habilidades próprias de aves, como diferentes técnicas de voo. O novo Pássaro-mais-velho está vindo cumprir a missão que recebeu e pousará entre nós a qualquer momento. Eu quero que me prometam uma coisa: não se esqueçam do que aprenderam aqui. Respeitem aquele que será o Pássaro-mais-velho deste ninho e ele respeitará vocês. Quem sabe vocês não possam ensiná-lo alguns truques. Todos do vale sabem que vocês não são meras aves e isso não irá mudar. Olhem, ele está chegando:
_ Olá, irmão-cão. Há quantos ciclos!
_ Seja bem-vindo de volta, irmão-tiê. Meus passarinhos não poderiam estar sob melhores asas. Boa sorte em sua jornada. Cuide de meus pequeninos.

O cão olhou para trás uma última vez. As pequenas aves se juntaram ao seu redor e deram as asas, formando um círculo, que representa tudo o que foi e tudo o que um dia irá ser.



...
E assim, o velho cão deixou o ninho que tentou construir. Enquanto seguia sua jornada, cujo caminho sentia que precisava percorrer, se lembrou das palavras da Mãe Natureza, ditas após o anúncio do fim de sua incumbência, esclarecendo as motivações de sua decisão, e que agora ecoavam em sua mente:
“Olhe ao seu redor, irmão-cão. Tudo ficou claro para mim quando eu observei a nova geração de seus aprendizes. Eu dei a você uma missão: cuidar de jovens passarinhos. Veja o que aconteceu. Os Pássaros que Latem se espalharam por todo o vale. Não são mais um grupo. Eles se tornaram uma nova espécie. E cada pássaro ao sair de seu ninho e voar por conta própria se tornou capaz de criar um novo Pássaro que Late na árvore em que foi pousar. O falcão está sempre de guarda; a coruja o ajuda na instrução dos mais jovens; o bem-te-vi sempre alerta fiscalizando cada voo; o tucano quebra os alimentos mais duros para facilitar a alimentação dos pássaros que não desproveem de seu poderoso bico colorido; a cambacica não espera mais o período de floração e aprendeu a semear árvores frutíferas para se alimentar das flores que quisesse, além de ajudar na alimentação de outros que dependem de frutos, mas ainda são jovens demais, como o sanhaço. Outros, assim como foi com a harpia, ensinam cãezinhos a semear. Só há razão de ser, irmão-cão, aquilo que ainda não chegou. Não haverá fim para essa nova realidade e, portanto, não há mais nada a se fazer aqui. Estou satisfeita. Um dia, você aceitou com relutância a sua missão. Agora aceite que você a cumpriu. Aceite. Sua missão terminou.”

“Terminou...” – repete mentalmente o cão – “Terminou”. Ele adentrou na Floresta de Eucaliptos, que os passarinhos cultivaram; atravessou o Deserto de Ametista, assim como o Bosque das Árvores Secas; subiu pelo Riacho da Cascata Ascendente; descansou um pouco sob a Árvore-do-que-poderia-ter-sido e lá conversou um pouco com o protetor do lugar, o filho da água; correu, pulando e latindo, satisfeito, pelo Jardim das Margaridas e se encostou entre o Eucalipto Centenário e a Pedra do Firmamento. Ali, deitado, repensou em tudo o que passou, olhou para a lua e disse o último “muito obrigado!”. O cão respirou fundo. Sentiu-se feliz pelo cheiro agradável de musgo e terra. Colocou a cabeça entre as patas, fechou seus olhos e, finalmente, se tornou um com a natureza.

Uma brisa fria percorreu por todo o vale. Longe dali, o beija-flor, que estava treinando seus novos protegidos, parou no ar e voou para cima, rápido e em silêncio; do outro lado da floresta, a harpia-azul fitou seus cãezinhos, os quais atendendo o olhar foram para a toca e se deitaram, esperando seu retorno. Da mesma forma, os oito passarinhos que estavam aos cuidados do novo Pássaro-mais-velho, assim como dezenas de outras aves, que quando filhotes aos cuidados do cão se destacaram entre os seus e que agora lideravam pequenos grupos de animais, repassando o que aprenderam, voaram e pousaram no topo das árvores mais altas. Olharam para lua, respiraram fundo, abriram suas asas e uivaram. Uivaram por toda a noite.

Naquela noite, ouvia-se o uivo em uníssono dos Pássaros que Latem e nada mais além.



...
DIAS DEPOIS.

_ Levanta e venha comigo! – disse a Mãe Natureza. Disse e foi para o alto da montanha central.
O ser que um dia foi um cão abre os olhos, olha para o que se tornou e sorri. Ele se levanta e voa até onde está a Mãe Natureza, e de lá seguem voando juntos observando e acompanhando, de um horizonte ao outro, o desenvolvimento daqueles que serão, para sempre, os seus passarinhos.

FIM
Era uma vez um cão de rua que treinava a si mesmo, que um dia recebeu a missão de ser um Pássaro-mais-velho, que travou batalhas e sobreviveu a tempestades, que viu seus pequenos pássaros crescerem e receberem eles próprios as suas missões, que mereciam ou necessitavam, e que conseguiu da mãe natureza, por meio de uma estranha missão, aquilo que mais desejou: ser livre.


BC
P.S.: Com essa missão, eu aprendi mais do que ensinei. Obrigado por tudo, meus passarinhos! Muito obrigado!



 

Um comentário:

  1. Ana Carolina Santos de Oliveira28 de julho de 2012 17:34

    Achei que ia me emocionar só com o texto. Quando vi o "símbolo" que passamos uma semana tentando definir em texto e a foto não deu para segurar!
    Foi um ciclo lindo, e te garanto que aprendi muito mais com você como o imortal chefe-brother, como meu pássaro mais velho, do que aprendi em qualquer outra fase.
    Definitivamente, a hárpia se transformou de dentro para fora depois de ser chefiada pelo Cão.
    O bom dos ciclos é que ao terminar um, outro logo o segue, e o cão é realmente muito mais do que um pássaro mais velho e merece vôos muito mais altos!

    ResponderExcluir