sexta-feira, 2 de novembro de 2012

At.: Aos meus queridos mortos



Amados,

Hoje é dia de finados. Alguns de vocês já celebraram esse dia, mas é o primeiro de dois de meus entes queridos que estão aí também.

Interessante o nome finados. Dia de terminados? Dia de concluídos? Se nós acreditarmos que existe algo além do final, o nome pode ser outro? Não gosto de fim. Não gosto da ideia de vocês serem finados. Talvez aceite a visão romântica de missão concluída; que o caminho nesse plano foi finado. Mas vocês não.

Ainda não sei lidar com o conceito de morte. Não a aceito. Nego-a com veemência. Imagino vocês comigo a ponto de sentir suas presenças e até mesmo suas vozes. Não os ouço, nem os vejo. Não estou louco a esse ponto, nem sou médium. Não quero ser. Eu os sinto. Não, eu não me tornei espírita. Acredito que isso se dá mais pela minha relutância em aceitar rótulos do que por falta de crença.

Dizem que preciso aceitar que vocês se foram para que eu possa seguir em frente. Aceito que seus corpos foram gastos e não serviam mais para vocês, e que vocês continuam a vida de um jeito que não compreendo muito bem.

Como sabem, algumas coisas não mudaram. Ainda entro em casa e olho para um porta-retratos com uma fotografia tirada há quinze anos e digo: “Bença, vó!”. Juro que me sinto abençoado. Quando estou em um momento de dúvida, me sento na mesma cadeira em que eu passei várias manhãs de sábado ouvindo histórias de meu avô, os “causos” repetidos que tanto gostava de ouvir, e pergunto: “E então, vô? O que eu faço agora?”, e em poucos minutos me sinto seguro e decidido com o conselho que sinto receber. Como eu disse, não os ouço, mas os sinto. São ideias que surgem do nada. Segurança e firmeza vindas de não sei onde.

Todos aqui em casa estão bem. Estou ajudando na reforma. Vocês vão ver como nossa casinha vai ficar bonita. Eu contei que comprei um lote? É grande o bastante para ter um quintal e isso é o mais importante pra mim, como devem se lembrar. Ah, eu saí do cartório onde eu trabalhava. Sinto falta daquela época, do ambiente, dos colegas, mas fui muito bem recebido no outro cartório onde estou agora. É bem agradável lá. Estranhei um pouco no começo, mas estou gostando. Os novos colegas são bem legais também.

No mais, a gente vai tocando a vida do jeito que sabe e aguenta.

Sinto falta da presença física de vocês. Das peles, dos pelos, dos cheiros, das vozes, das obrigações, do horário de dar remédio, de preparar a comida, do dia certo de fazer compras, da necessidade de atenção. Sinto falta da falta de liberdade, por ter sempre que deixar de ir para algum lugar que eu queria, para fazer algo para agradá-los. Mas sinto a presença de vocês e isso ameniza o vazio que me corroi por dentro e faz eu me sentir quase feliz.

Eu queria aproveitar esta carta pra agradecer. Vocês, juntos, ajudaram a moldar meu caráter, meus valores, minha postura diante dos problemas e dos prazeres da vida. Me ensinaram a valorizar a beleza da simplicidade. Sabiam que eu mantive velhos hábitos e manias de vocês? Estou aprendendo a cultivar uma horta bem ali no quintal. Não está muito produtiva ainda não, mas estou me esforçando. Estou aprendendo a afinar o violão e me arrisquei até a preparar um doce para surpreender com uma sobremesa típica da vozinha.

Dizem que, se os chamamos com frequência, vocês não descansam aí onde estão morando agora. Que tem seus afazeres e que eu não os deixo sossegar. Deixarei-os em paz, no sentido de não mais agir como menino mimado pedindo atenção o tempo todo, mas não os quero longe de mim. Já que nos amamos e vocês estão comigo quando preciso, desde já convido para que venham sempre prosear.

Bem, eu contei como estou, agora é a vez de vocês. Venham, sentem-se ao meu lado e me contem como estão. Hoje é dia de vocês. Hoje é dia de ouvir “causos”. Hoje é dia de confraternizar com a família completa. Com todos os amados, estejam em um corpo carnal ou não.

Minha mãe mandou um abraço bem apertado a todos vocês e um cafuné na Gabi e na Laika.

Aguardo a próxima visita. Até lá! 

Fiquem com Deus.



Com amor,

Becê               







9 comentários:

  1. Oi Bruno
    Quanto tempo! Fico feliz que tenha voltado a escrever, vc escreve muito bem! Que texto maravilhoso e espontâneo. Gostei muito.
    Bjão. Fique com Deus!

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  2. Oi. Lu! Mto obrigado! Pois é... voltei! Obrigado pela visita e pelo comentário!
    Bjo e fica com Deus tb!

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  3. É legal como voce escreve..realmente como se o fizesse para outra pessoa. Pensar em finados é triste mesmo, é pensar em um fim para alguem..quando, na verdade, ela permanece em nossas lembranças e coração.

    Beijos.

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  4. Muito obrigado, Lu Rosário! Realmente guardamos para sempre no coração.

    beijos

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  5. Aaaah... muito obrigada, Maoli!

    Beijos e beijos!

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  6. Meu nome é António Batalha, estive a ver e ler algumas coisas de seu blog, achei-o muito bom, e espero vir aqui mais vezes. Meu desejo é que continue a fazer o seu melhor, dando-nos boas mensagens.
    Tenho um blog Peregrino e servo, se desejar visitar ia deixar-me muito honrado.
    Ps. Se desejar seguir meu blog será uma honra ter voce entre meus amigos virtuais, decerto irei retribuir com muito prazer. Siga de forma que possa encontrar o seu blog.
    Deixo a minha benção e a paz de Jesus.

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    1. Muito obrigado pela visita e pelo comentário, Antonio! Não consegui localizar seu blog. Por favor, deixe o link aqui para que eu possa visitá-lo.
      Abraço!

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  7. Maoli,

    Resumo o texto "At.: Aos meus queridos mortos" em uma palavra... Emocionante!
    Igual a esse, só o do menino e do rio!
    Fantástico!
    Por ter como temática o dia dos finados, estava com uma expectativa meio triste, mas me surpreendi!
    Você lembrou dos seus entes queridos com muito carinho!

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  8. Hola, me gustó mucho este post, y el Blog es muy ameno y completo. Felicitaciones y un gran saludo desde:
    http://leyendas-de-oriente.blogspot.com/

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