sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O Jardim



Bem-me-quero, mal-me-quero, bem-me-quero, mal-me-quero...

 


“quantas cores,
quantos aromas,
 quantos amores...
inúmeros, inúmeros.”






TESTE-BASE


Antes de começarmos, apresento a você um teste. É como aqueles que você fazia lendo revistas de adolescente, onde tinha que marcar se preferia fazer compras no shopping ou no supermercado e no fim mostrava um resultado dizendo que você é uma pessoa legal e comunicativa.
Sem pensar muito, marque a alternativa que primeiro vier à cabeça. A primeira coisa que vier à cabeça, hein? Seja honesta!



1)     Quando um amigo te liga, antes de atender você pensa:
a.     Oba, uma ligação!
b.     Ai, que saco!
c.     O que será que ele(a) quer dessa vez?


2)    Quando percebe que vai passar o fim de semana em casa com sua família, o que vem à mente:
a.     Oba, mais tempo juntos!
b.     Ai, que saco!
c.     O que vão cobrar de mim dessa vez?

3)    Quando você vai ao médico?
a.     Quando sente muita dor
b.     Em check-up anual
c.     Quando vai fazer seleção de emprego

4)    No trabalho, quando você não recebe um elogio por um serviço ao qual se dedicou, você pensa:
a.     Na próxima vez eu vou me esforçar ainda mais.
b.     Ai, será que não ficou bom?
c.     Quer saber, vou é cruzar os braços a partir de agora



5)    Quando você mais pensa em uma força superior?
a.     Quando para pra admirar a natureza
b.     Quando precisa de um desejo realizado
c.     Ao acordar

6)    Qual desses cantores você prefere:
a.     Leonardo
b.     Djavan
c.     Lady Gaga

7)    Qual desses pratos você mais gosta:
a.     Macarrão
b.     Arroz, feijão, bife e batata-frita
c.      Petit gateau

8)    Para qual desses lugares você gostaria de ir agora:
a.     Uma praia no nordeste
b.     Um lugar isolado no meio da floresta
c.     Um café em Paris.


O resultado do teste será encontrado no texto a seguir =>


APRESENTAÇÃO


O jardim das margaridas foi um texto escrito por mim em 1999 para participar da semana cultural no colégio em que eu estudava. Ganhei pontos para a aula de português, mas não ganhei o concurso da tal semana cultural.

Ter perdido essa seleção de trabalhos fez muito bem para mim, pois, ainda menino, tive que aprender a lapidar textos de modos variados. A partir daí compreendi que o mundo se dividia em dois: o mundo com as coisas como eu gosto, e o mundo com as coisas como os outros gostam. Os dois mundos precisam ser respeitados.

Desde então, o Jardim das Margaridas se tornou uma referência para mim. Eu o vejo como um mapa para controlar a autoestima, a sensação de vazio, ambições, orientar planos e sonhos, crenças e vontades. Vou registrar aqui a ideia central passada no texto, de modo mais direto, de acordo com a minha atual interpretação dessa obra.


B.C.




O JARDIM

Você sente que a vida é uma maratona, mas por mais que treine, sempre próximo da linha de chegada, você tem uma câimbra? Se sente como um lampião no meio do mato, que tem sua luz própria, mas acaba atraindo um monte de insetos? Seus planos perfeitos não se concretizam e não sabe o porquê? Se esforça em prol de uma causa e não recebe o devido reconhecimento?
Isso acontece porque você está destruindo o jardim das margaridas. Sim, eu sei que acha que essa baboseira não faz sentido. Calma, eu posso explicar.
Se lembra de quando era criança e pegava uma margarida e ficava brincando: “bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer...”, e no fim você sabia se era bem ou se era mal (muitas vezes enganando a margarida para que a última pétala sempre acabasse no bem-me-quer)? Pois bem, você conseguia duas coisas: tinha a sua resposta e uma margarida morta.
O mesmo ocorre com tudo no mundo: com a saúde do nosso corpo e da nossa mente; com nossos familiares; com nosso trabalho; com nossos amigos. Tudo são pétalas de possibilidades. Imagine a seguinte situação: Você acaba de começar um relacionamento. Esse relacionamento é uma margarida que nasceu. Você pode cheirar a margarida, pode admirar suas cores e até conversar com ela igual a uma doida (vai me falar que você nunca conversou com plantas? Converse!), mas aí o que você faz? Você começa o bem-me-quer.
Logo, a primeira pétala é arrancada:
_ Será que ele tem outra?
E então a segunda:
_ Ele gosta de mim ou só quer me comer?
A terceira:
_ Esse tom de voz está escondendo alguma coisa.
E assim, vão-se as outras pétalas, e o que você tem agora? Você conseguiu duas coisas: você tem a sua resposta e uma margarida morta.
Agora pare e pense no que foi dito antes. Da mesma forma acontece com outras coisas. Pense em outras situações que se encaixam. Quantas margaridas foram destruídas nessa brincadeira de questionar demais? De pensar demais? Relacionamentos, trabalho, estudos, família? Quantas horas de sono você perdeu tentando achar respostas que só servem para destruir o jardim?
“(...) e lá estava eu, em meio a um vasto jardim, de flores despetaladas. Deus, eu só queria um abraço.” (O jardim das margaridas – Maoli)



O DONO DO JARDIM

Tem um segredo que você precisa saber, mas não pode contar para ninguém. O jardim não é seu. O jardim não é meu. Não é um jardim DE margaridas, é o jardim DAS margaridas. Elas são plantadas por Deus e donas de si próprias. Nós apenas devemos aproveitar o jardim, adubar, regar e proteger as pétalas com todas as nossas forças.
“Agora, Arjuna,
Levata-te e Luta!” (Bagavad gita)




VOCÊ TAMBÉM É UMA MARGARIDA

E quanto a sua visão de si mesma? Você e a sua autoestima já provaram todos os sentimentos conhecidos e muitos outros inimagináveis. Vocês já se amaram, já se odiaram, já caíram nos tapas uma com a outra, sem perceber que as duas são você. Já se magoaram a ponto de ficar de mal. Já fizeram as pazes. E quando tudo está bem, a história se repete. Agora pense em você como sendo uma das margaridas. Você é uma flor, com suas cores, seu aroma e suas funções importantes como as de produzir néctar, atrair polinizadores, além de gerar e receber pólen, mas então, o que você faz? Começa a brincadeira: “Bem-me-quero, mal-me-quero, bem-me-quero...”. Assim, como quando era criança, muitas vezes o mau-humor passa e você se esforça para chegar ao resultado bem-me-quero. Parabéns! Você conseguiu duas coisas: trabalhar sua autoestima e mais uma margarida destruída. Você.

“Não tenha medo, olhe a sua volta. Vê? É o maravilhoso jardim das margaridas! (...) Quantas cores, quantos aromas, quantos amores... inúmeros, inúmeros.” (O jardim das margaridas – Maoli)



ADUBE. REGUE. PROTEJA AS SUAS PRÓPRIAS PÉTALAS
Alimentar a autoestima é importante e necessário, afinal, como diz a sabedoria popular: “Se você não se amar, quem é que vai?”. Com isso podemos pensar: E se você se amar, quem mais vai? A resposta é: todo mundo! Então, não puxe suas próprias pétalas, nem as pétalas de ninguém. Viva para proteger o jardim das margaridas daqueles que tentam despetalá-lo.
Olhe no espelho e dê uma chamada de atenção em você mesma. Não seja brega dizendo: “Você é bonita! Você é forte! Eu posso, eu quero, eu consigo!”. Olhe no fundo dos seus olhos e diga: “PUTA QUE PARIU, COLEGA! Assim não dá!”. Mais umas broncas e depois, quando seu reflexo estiver meio murcho e com as orelhas baixas, aí sim. Vai! Seu reflexo merece. Você pegou pesado. Chame o reflexo de volta, dê uma piscadinha e diga: “Gostosa!”. Agora sim você está pronta: se levanta, sacuda a poeira e deixe o jardim renascer. Ele sempre renasce quando deixamos acontecer.


“Precisamos aceitar nossos defeitos, perdoar nossos erros e entender que somos, acima de tudo, amigos e parceiros que se uniram para, juntos, seguir o caminho da vida superando dificuldades. E se não der certo mesmo com toda essa compreensão, eu troco de marido, oras! Eu sou gostosa!
Vou viver mais em vez de fazer planos. Ser feliz e todas as outras conquistas será conseqüência!
Tenhamos todos um natal muuuito feliz e um ano novo cheio de saúde e prosperidade!!!
Minha lista de resoluções para o ano novo: Vou desligar o celular e fazer caminhada alguns dias na semana. E minha gordura localizada irá comigo ao clube sempre que ela quiser, graças a Deus!”           

A NOVA ROTINA

Para ajudar a manter o jardim saudável é preciso trabalhar uma nova rotina. Uma rotina leve e que traga satisfação. Para a sua elaboração, é preciso compreender que uma flor sozinha é admirada, mas não forma um jardim. É preciso flores diferentes, lembrando que diferença gera atritos e que atritos são necessários para lapidar qualquer material. Atritos não no sentido de brigas, mas no sentido de conviver com pessoas que enxergam o mundo de modo diferente do seu. Não existe “o” jeito certo. Existem vários jeitos certos. E cada modo de enxergar o mundo precisa ser respeitado. Se todos fossem como você o mundo seria um lugar melhor, mas logo você acharia tudo um tédio.
Calcule seus passos a curto, médio e longo prazo. Mas não faça planos de comprar a lua. Não planeje coisas legais se forem improváveis. A felicidade vem de pequenas vitórias e as grandes conquistas são consequência da pessoa feliz. Planeje o futuro de modo racional, calculando uma meta possível de ser alcançada por um ser humano médio e calculando também qual o preparo necessário para se chegar lá. Como por exemplo, adquirir um imóvel. Você não pode arrancar pétalas pensando “Eu vou conseguir, eu não vou conseguir, eu vou conseguir”. Planeje o básico: para comprar um imóvel é preciso dinheiro. Como se consegue dinheiro de modo honesto? Trabalhe! Seja útil e terá o retorno. Ser útil funciona como um adubo para o jardim. Faça alguma outra flor mais bonita e você obterá as respostas que procura.
É um ciclo. E quanto mais simples esse ciclo, mais satisfação trará.

“Simplicidade é o que há de mais sofisticado.”



A RECEITA DO BANQUETE

Responda de modo livre, porém objetivo, em uma linha:
1) Você se ama?

2) Você ama mais alguém? Quem?

3) Quem você não suportaria perder para sempre?

4) Quem você gostaria de fazer sorrir?

5) Quais companhias você gostaria de ter ao seu redor em seu tempo livre?

6) Quais lugares do Brasil e do mundo você gostaria de conhecer e ao lado de quem?

7) Qual esporte você vai praticar?

8) Qual música vai ser parte da trilha sonora da sua vida?

9) Qual seu prato favorito?

10) Qual aroma você gosta de sentir a ponto de fazer você sorrir?





  
CONCLUSÃO

Agora você já se conhece melhor.
Agora você já sabe que a vida é um jardim que tem dono e que cabe a nós cuidarmos dele.
Agora você já sabe que você é uma das tantas margaridas desse jardim, e que não deve retirar pétalas de outras flores e nem mesmo as suas.
Agora você já sabe que deve mudar sua rotina, não apenas para não destruir o jardim, como para evitar que outras pessoas o façam.
Agora você já sabe que deve pegar esse último questionário e segui-lo como a um roteiro.
Use-o como início da sua nova rotina, com a qual, você se sentirá mais forte para ajudar a cuidar do jardim.
Compare com as respostas do primeiro questionário, o qual serviu para você começar a se conhecer.  
Compre um caderno e registre a sua evolução pessoal.
Após um período, crie novas perguntas e se dedique às suas novas respostas.
Releia suas anotações, não como um diário, mas como uma receita de um banquete delicioso que você irá organizar.
E essa mesa farta que você está aprendendo a preparar, com tudo o que há de mais gostoso... É a sua vida.
Prepare-a e sirva-se à vontade!

“Dentro dos limites que Deus me permite, eu escrevo a minha vida como eu quiser.” (Divina em Páprica I)

B.C.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Páprica I - Ela não sabia dizer não (3ª parte)



Ela abre os olhos e observa a meia luz que passa por entre as frestas da cortina, sem saber ao certo se está amanhecendo ou se é entardecer.
Olhar vazio.
Franze um pouco a testa quando começa a se lembrar da dura decisão que terá que tomar muito em breve. Mesmo assim está satisfeita, pois experimentou a leveza da maior liberdade que alguém pode sentir: esquecer o próprio tempo. Abre as janelas e contempla as cores do céu límpido. Tudo é tão lindo, mas falta alguma coisa.

Divina está de cama há dias. Sete dias.

Quando ela saiu do hospital, fez o que todos fazem quando me veem assim, cara a cara: começou a repensar sua vida. Sua reação a essa experiência foi interessante. Enxergou tudo com clareza e viu um mundo vazio. Sem dor, tranquilo, mas vazio. “Um vazio de um horizonte a outro não serve de companhia. Que saudades sinto dos tempos de trevas.” - pensava, deitada naquela cama.
O corpo físico sobreviveu, mas ao conseguir ver o mundo com mais maturidade espiritual, chegou a um ponto em que precisou se isolar, me chamando para conversar quando sentisse vontade, para entender o que realmente aconteceu com ela ao longo de sua própria história.

No primeiro dia, ela me contou que foi responsável pela morte de seu pai, que faleceu devido a um traumatismo craniano ocasionado pela queda de uma escada. Eu perguntei se ela empurrou a escada e ela me disse que não a segurou.
_ Está me dizendo que não foi minha culpa? – Questionou.
Expliquei para ela que ele não caiu porque a escada se desequilibrou. Ele teve uma vertigem. E como era um homem muito grande, ela jamais conseguiria segurá-lo. Ele cairia de qualquer jeito, só que de modo mais triste, pois ela iria presenciar aquela cena trágica. Ela ficou pensativa.

No segundo dia, ela perguntou minha opinião acerca de seu casamento. Disse-me que seu pai nunca gostou de seu marido, mesmo anos antes de ficarem noivos. Que nunca se entregou verdadeiramente por que pensava sempre na reprovação de seu pai. Eu procurei saber se o pai deixou claro que não aprovaria seu casamento e ela me respondeu que não sabia dizer. O pai só falou que não queriam os dois juntos em uma festa de adolescentes da vizinhança. Questionei se ela deixaria seu filho se envolver com uma desconhecida, quando ele ainda não tinha maturidade. Ela sorriu.

No terceiro dia, conversamos sobre seus filhos. Um adorável casal de jovens adultos. Ela me contou que sempre amou ser mãe, mas lamenta ter abandonado os estudos para criá-los. O sonho dela era fazer uma faculdade. Acho que ainda é. Chorou ao falar do desapego deles durante a adolescência e como gostaria de ter feito mais para que eles tivessem ido mais longe na vida. Palavras dela. Procurei me informar se ela conhece alguém cujos filhos fossem perfeitos. A resposta foi não. Perguntei quem ficou ao lado dela, além de mim, nesse momento de dificuldade que ela está passando.
_ Meus filhos – ela respondeu chorando e rindo. Depois repetiu: _ Meus filhos – dessa vez disse rindo e chorando.

No quarto dia, ela me explicou que as plantas no quintal e o jardim na frente são a resposta da necessidade, nunca superada, que ela tem de ter uma casa tão organizada quanto à da mãe dela foi um dia, onde a bananeira no quintal e a trepadeira no portão davam àquela casa um aspecto de lar. Expliquei que a nostalgia faz com que nos sintamos insatisfeitos com nossas conquistas. Contei um segredo meu e da mãe dela: a mãe nunca estava satisfeita com a casa. Achava que a trepadeira não crescia o suficiente para tampar o muro e a bananeira dava bananas de menos. O lar perfeito veio da cabeça de Divina enquanto criança. E expliquei que muitas vezes a visito porque a casa dela tem um ar de lar. Até mesmo para mim. Ela respira fundo, orgulhosa.

No quinto dia, eu que dou início à conversa. Falo sobre como deve ser cansativo ser a salvadora dos parentes. Ter essa necessidade de se doar para ajudar a mãe, os irmãos e até mesmo o sogro, principalmente quando acompanhou seu tratamento médico, quando pareceu que ninguém mais poderia; que se ela não fizer algo ninguém o fará. Concluí meu raciocínio dizendo que talvez não façam nada porque sabem que ela irá cuidar de tudo mesmo. “É meio cômodo para eles, não acha?”. E como foi triste quando nos poucos dias em que não havia condições de ajudar, teve que ouvir que não se dedica, que não se importa com o próximo.
_ Eu devia ter deixado eles morrerem? – ela perguntou. Conclui explicando que ela não errou em se dedicar demais, o erro foi esperar algo em troca. Infelizmente, para ela, essa característica de se doar, mesmo que não tenha o devido reconhecimento, foi escolha minha em sua criação. Eu quis assim. Pedi desculpas a ela por isso. Ela sorriu.

No sexto dia, ela finalmente estava pronta para conversar mais profundamente sobre seu relacionamento. O desgaste. As frustrações. As decepções. E me contou que teria uma importante decisão a tomar até o dia seguinte. Ela contou que leu em algum lugar sobre isso, sobre envolvimento entre pessoas diferentes, comparando relacionamentos com textos. Que a vida dela se tornou uma novela, mas que ela é um poema. E que ela e o marido são tipos de texto diferentes demais. Esclareci que não há necessidade de serem de mesma tipologia, apenas que sejam compatíveis, que respeitem as diferenças e que tenham real vontade de “ler” um ao outro.
_ Real vontade de ler um ao outro. É isso! Muito obrigada! Boa noite! – concluiu me dispensando da conversa e do quarto.

Hoje, nHoHo sétimo dia, ela se espreguiçou. E, como eu disse antes, ela abriu os olhos e observou a meia luz que passava por entre as frestas da cortina, sem saber ao certo se estava amanhecendo ou se era entardecer. Franziu um pouco a testa quando começou a se lembrar da dura decisão que terá que tomar muito em breve. Mesmo assim, estava satisfeita, pois experimentou a leveza da maior liberdade que alguém pode sentir: esquecer o próprio tempo. Abriu as janelas, contemplou as cores do céu límpido e, como se ainda pudesse me ver diretamente, bradou, com um sorriso lindo em seu rosto: 

_ Bom dia, Deus! O Senhor tem escrito a minha história e, como gosta de fazer, escreveu muito certo em linhas tortas. Eu agradeço por isso, mas quero tentar algo diferente. Posso não comandar tudo o que acontece no mundo, mas quem vai escrever e contar a história da minha vida a partir de agora sou eu. Sei que é o Senhor quem manda e decide pra que lado quer que a história vá, mas posso dar palpites, não é, Deus? Vai que o Senhor aceita alguma boa sugestão!

Vamos lá... Onde foi mesmo que o Senhor parou?

Ah, sim! Eu estava deitada há dias. De cama, sem vontade. Saia só pra ir ao banheiro, tomar água, comer alguma bobagem. Voltava pra cama, deitava. Pensando e repensando na minha vida. Sabe quando você não faz nada, mas sua cabeça não para um segundo e você fica mais cansada do que se estivesse trabalhando? Pois é, eu estava assim. 

Até que hoje de manhã eu fiquei com vontade de arrumar a cama.

Me levantei, arrumei a cama, tomei um banho, passei uma maquiagem básica, coloquei uma roupa simples que eu gosto muito, olhei no espelho e sorri pra mim. Eu estava linda! Ganhei um brilho no olhar que só me lembro de ter tido durante a infância, ao chegar em casa da escola e ajudar minha mãe a terminar o almoço, enquanto a gente esperava meu pai voltar do trabalho só pra correr até ele e abraçá-lo.

Liguei para o Ivan e avisei que estava pronta para conversar.

Ele veio na hora combinada e se sentou no sofá. Me perguntou se eu tinha colocado a cabeça no lugar e o que eu tinha a dizer depois de tudo o que aconteceu entre nós. Qual a minha resposta. Eu perguntei se ele aceitava um suco. Caju. E aqui estou eu, há não sei quantos minutos, olhando para a geladeira aberta.
Bom... É agora! Pegar o suco e voltar à realidade. 

Eu me sento ao lado dele, respiro fundo e ponho pra fora o que guardei por anos e que quase me matou:
_ Bem, Ivan! Por onde começar? Eu passei minha vida inteira procurando por um tempero que tirasse o gosto insosso de tudo, que desse mais sabor às coisas e aumentasse a minha vontade de saborear o que o dia a dia nos oferece. Anos se passaram. Décadas até. Sabe o que descobri? Deus é o diretor da história da minha vida, mas a roteirista sou eu. Ele me coordena. Me orienta. Me dá bronca. Me anima. Mas o texto é meu. Agora eu consegui entender o que Ele tem tentado me explicar durante todo esse tempo: Dentro dos limites que Deus me permite, eu escrevo a minha vida como eu quiser. Ser a escritora de minha vida é o meu tempero. Eu estou sentindo sabores deliciosos no ar que eu respiro; nas cores que eu vejo (quantas cores, quantos aromas, quantos amores... inúmeros... inúmeros); nas texturas que eu sinto; a delícia dos sons. Até mesmo no prazer de um espirro, que coloca pra fora de meu corpo algo que não reconhece. 

_ Dá para notar como você está segura de si. Fico feliz com essa melhora. Isso é muito bom mesmo. Tudo vai dar certo. Eu fiquei muito preocupado. Se acontecesse algo com você eu não iria me perdoar. Afinal, eu acabei causando todo esse estresse. Me perdoa!

_ Você não foi a causa do meu estresse. Talvez tenha sido a gota d’agua (haha). Eu não guardo mágoa alguma de você e, sim, eu o perdoo. Pensei muito e sei que tudo aconteceu daquele jeito porque teve que ser assim. É como diz o povo: “Não é porque não deu certo que o relacionamento foi ruim ou perda de tempo”. Eu aprendi demais no passar dos anos. Sou eternamente grata a você. Você cuidou de mim. Me fez ter experiências que eu nem sonhava. Foi tudo o que passamos juntos, tudo o que mudou em nossas vidas enquanto estávamos juntos, que me fez ver as coisas como as vejo agora. De um jeito mais natural e simples. Foi depois de pensar muito e reviver toda essa experiência que eu pude entender que eu não sou culpada pela morte de meu pai. Eu não sou culpada por tudo o que acontece de errado. Nem sou responsável pela vida de todos. Eu mereço um momento egoísta. Eu quero ficar sozinha. No meu tempo. No meu espaço. Não digo que preciso de solidão. Não! Isso não. Jamais! Sentir o prazer de estar só e seguir minha vida sem me questionar se o outro está gostando ou não é diferente da dor da solidão. Esta não é um momento. Não é uma escolha. É uma condição. E não pode ser evitada. E sentir solidão, estando acompanhada, é aceitar uma tortura em nossa própria alma. 

_ Divina, um amor igual ao nosso não acontece todo dia. Como você bem lembrou, vivenciamos muita coisa juntos e, mesmo após todos esses anos, nosso amor é algo vivo.

_ Verdade! Nosso amor era algo vivo e, como tudo que é vivo, nasceu, cresceu, amadureceu, teve suas fases de doença e de fartura e um dia tinha que morrer. Eu precisei chegar muito perto do lado de lá pra perceber que a morte é algo natural. Não foi essa a minha vez, mas um dia será. E quando eu estiver cara a cara com Deus novamente eu quero virar pra ele e falar: “Adorei essa passagem! Muito obrigada!”.

_ Você ainda está um pouco perturbada com o incidente. Não está falando coisa com coisa. Está aí filosofando. Vamos tentar ser mais diretos, tá bom? Eu acho ótimo você enxergar as coisas de modo mais bonito, mas não mudou nada entre a gente. Está tudo como sempre foi, falta apenas você querer enxergar. Agora só me diz o que eu tenho esperado tanto para ouvir. Diz para mim que eu posso pegar as minhas coisas e voltar para casa. Diz que você sabe que seu lugar é ao meu lado. Tudo será diferente, eu garanto.

_ Com certeza será. Venha. Me dê a sua mão. Olhe bem nos meus olhos. Pode ver o brilho renovado que há neles? Olhe nos meus olhos. Anda. Não se preocupe, não vai se cegar. 


...

...

...


_ Não!


Páprica.

BC

Para acessar: 
* Páprica  (clique aqui)
* Páprica I - 1ª parte (clique aqui)
* Páprica I - 2ª parte (clique aqui)