quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Páprica I - Ela não sabia dizer não (3ª parte)



Ela abre os olhos e observa a meia luz que passa por entre as frestas da cortina, sem saber ao certo se está amanhecendo ou se é entardecer.
Olhar vazio.
Franze um pouco a testa quando começa a se lembrar da dura decisão que terá que tomar muito em breve. Mesmo assim está satisfeita, pois experimentou a leveza da maior liberdade que alguém pode sentir: esquecer o próprio tempo. Abre as janelas e contempla as cores do céu límpido. Tudo é tão lindo, mas falta alguma coisa.

Divina está de cama há dias. Sete dias.

Quando ela saiu do hospital, fez o que todos fazem quando me veem assim, cara a cara: começou a repensar sua vida. Sua reação a essa experiência foi interessante. Enxergou tudo com clareza e viu um mundo vazio. Sem dor, tranquilo, mas vazio. “Um vazio de um horizonte a outro não serve de companhia. Que saudades sinto dos tempos de trevas.” - pensava, deitada naquela cama.
O corpo físico sobreviveu, mas ao conseguir ver o mundo com mais maturidade espiritual, chegou a um ponto em que precisou se isolar, me chamando para conversar quando sentisse vontade, para entender o que realmente aconteceu com ela ao longo de sua própria história.

No primeiro dia, ela me contou que foi responsável pela morte de seu pai, que faleceu devido a um traumatismo craniano ocasionado pela queda de uma escada. Eu perguntei se ela empurrou a escada e ela me disse que não a segurou.
_ Está me dizendo que não foi minha culpa? – Questionou.
Expliquei para ela que ele não caiu porque a escada se desequilibrou. Ele teve uma vertigem. E como era um homem muito grande, ela jamais conseguiria segurá-lo. Ele cairia de qualquer jeito, só que de modo mais triste, pois ela iria presenciar aquela cena trágica. Ela ficou pensativa.

No segundo dia, ela perguntou minha opinião acerca de seu casamento. Disse-me que seu pai nunca gostou de seu marido, mesmo anos antes de ficarem noivos. Que nunca se entregou verdadeiramente por que pensava sempre na reprovação de seu pai. Eu procurei saber se o pai deixou claro que não aprovaria seu casamento e ela me respondeu que não sabia dizer. O pai só falou que não queriam os dois juntos em uma festa de adolescentes da vizinhança. Questionei se ela deixaria seu filho se envolver com uma desconhecida, quando ele ainda não tinha maturidade. Ela sorriu.

No terceiro dia, conversamos sobre seus filhos. Um adorável casal de jovens adultos. Ela me contou que sempre amou ser mãe, mas lamenta ter abandonado os estudos para criá-los. O sonho dela era fazer uma faculdade. Acho que ainda é. Chorou ao falar do desapego deles durante a adolescência e como gostaria de ter feito mais para que eles tivessem ido mais longe na vida. Palavras dela. Procurei me informar se ela conhece alguém cujos filhos fossem perfeitos. A resposta foi não. Perguntei quem ficou ao lado dela, além de mim, nesse momento de dificuldade que ela está passando.
_ Meus filhos – ela respondeu chorando e rindo. Depois repetiu: _ Meus filhos – dessa vez disse rindo e chorando.

No quarto dia, ela me explicou que as plantas no quintal e o jardim na frente são a resposta da necessidade, nunca superada, que ela tem de ter uma casa tão organizada quanto à da mãe dela foi um dia, onde a bananeira no quintal e a trepadeira no portão davam àquela casa um aspecto de lar. Expliquei que a nostalgia faz com que nos sintamos insatisfeitos com nossas conquistas. Contei um segredo meu e da mãe dela: a mãe nunca estava satisfeita com a casa. Achava que a trepadeira não crescia o suficiente para tampar o muro e a bananeira dava bananas de menos. O lar perfeito veio da cabeça de Divina enquanto criança. E expliquei que muitas vezes a visito porque a casa dela tem um ar de lar. Até mesmo para mim. Ela respira fundo, orgulhosa.

No quinto dia, eu que dou início à conversa. Falo sobre como deve ser cansativo ser a salvadora dos parentes. Ter essa necessidade de se doar para ajudar a mãe, os irmãos e até mesmo o sogro, principalmente quando acompanhou seu tratamento médico, quando pareceu que ninguém mais poderia; que se ela não fizer algo ninguém o fará. Concluí meu raciocínio dizendo que talvez não façam nada porque sabem que ela irá cuidar de tudo mesmo. “É meio cômodo para eles, não acha?”. E como foi triste quando nos poucos dias em que não havia condições de ajudar, teve que ouvir que não se dedica, que não se importa com o próximo.
_ Eu devia ter deixado eles morrerem? – ela perguntou. Conclui explicando que ela não errou em se dedicar demais, o erro foi esperar algo em troca. Infelizmente, para ela, essa característica de se doar, mesmo que não tenha o devido reconhecimento, foi escolha minha em sua criação. Eu quis assim. Pedi desculpas a ela por isso. Ela sorriu.

No sexto dia, ela finalmente estava pronta para conversar mais profundamente sobre seu relacionamento. O desgaste. As frustrações. As decepções. E me contou que teria uma importante decisão a tomar até o dia seguinte. Ela contou que leu em algum lugar sobre isso, sobre envolvimento entre pessoas diferentes, comparando relacionamentos com textos. Que a vida dela se tornou uma novela, mas que ela é um poema. E que ela e o marido são tipos de texto diferentes demais. Esclareci que não há necessidade de serem de mesma tipologia, apenas que sejam compatíveis, que respeitem as diferenças e que tenham real vontade de “ler” um ao outro.
_ Real vontade de ler um ao outro. É isso! Muito obrigada! Boa noite! – concluiu me dispensando da conversa e do quarto.

Hoje, nHoHo sétimo dia, ela se espreguiçou. E, como eu disse antes, ela abriu os olhos e observou a meia luz que passava por entre as frestas da cortina, sem saber ao certo se estava amanhecendo ou se era entardecer. Franziu um pouco a testa quando começou a se lembrar da dura decisão que terá que tomar muito em breve. Mesmo assim, estava satisfeita, pois experimentou a leveza da maior liberdade que alguém pode sentir: esquecer o próprio tempo. Abriu as janelas, contemplou as cores do céu límpido e, como se ainda pudesse me ver diretamente, bradou, com um sorriso lindo em seu rosto: 

_ Bom dia, Deus! O Senhor tem escrito a minha história e, como gosta de fazer, escreveu muito certo em linhas tortas. Eu agradeço por isso, mas quero tentar algo diferente. Posso não comandar tudo o que acontece no mundo, mas quem vai escrever e contar a história da minha vida a partir de agora sou eu. Sei que é o Senhor quem manda e decide pra que lado quer que a história vá, mas posso dar palpites, não é, Deus? Vai que o Senhor aceita alguma boa sugestão!

Vamos lá... Onde foi mesmo que o Senhor parou?

Ah, sim! Eu estava deitada há dias. De cama, sem vontade. Saia só pra ir ao banheiro, tomar água, comer alguma bobagem. Voltava pra cama, deitava. Pensando e repensando na minha vida. Sabe quando você não faz nada, mas sua cabeça não para um segundo e você fica mais cansada do que se estivesse trabalhando? Pois é, eu estava assim. 

Até que hoje de manhã eu fiquei com vontade de arrumar a cama.

Me levantei, arrumei a cama, tomei um banho, passei uma maquiagem básica, coloquei uma roupa simples que eu gosto muito, olhei no espelho e sorri pra mim. Eu estava linda! Ganhei um brilho no olhar que só me lembro de ter tido durante a infância, ao chegar em casa da escola e ajudar minha mãe a terminar o almoço, enquanto a gente esperava meu pai voltar do trabalho só pra correr até ele e abraçá-lo.

Liguei para o Ivan e avisei que estava pronta para conversar.

Ele veio na hora combinada e se sentou no sofá. Me perguntou se eu tinha colocado a cabeça no lugar e o que eu tinha a dizer depois de tudo o que aconteceu entre nós. Qual a minha resposta. Eu perguntei se ele aceitava um suco. Caju. E aqui estou eu, há não sei quantos minutos, olhando para a geladeira aberta.
Bom... É agora! Pegar o suco e voltar à realidade. 

Eu me sento ao lado dele, respiro fundo e ponho pra fora o que guardei por anos e que quase me matou:
_ Bem, Ivan! Por onde começar? Eu passei minha vida inteira procurando por um tempero que tirasse o gosto insosso de tudo, que desse mais sabor às coisas e aumentasse a minha vontade de saborear o que o dia a dia nos oferece. Anos se passaram. Décadas até. Sabe o que descobri? Deus é o diretor da história da minha vida, mas a roteirista sou eu. Ele me coordena. Me orienta. Me dá bronca. Me anima. Mas o texto é meu. Agora eu consegui entender o que Ele tem tentado me explicar durante todo esse tempo: Dentro dos limites que Deus me permite, eu escrevo a minha vida como eu quiser. Ser a escritora de minha vida é o meu tempero. Eu estou sentindo sabores deliciosos no ar que eu respiro; nas cores que eu vejo (quantas cores, quantos aromas, quantos amores... inúmeros... inúmeros); nas texturas que eu sinto; a delícia dos sons. Até mesmo no prazer de um espirro, que coloca pra fora de meu corpo algo que não reconhece. 

_ Dá para notar como você está segura de si. Fico feliz com essa melhora. Isso é muito bom mesmo. Tudo vai dar certo. Eu fiquei muito preocupado. Se acontecesse algo com você eu não iria me perdoar. Afinal, eu acabei causando todo esse estresse. Me perdoa!

_ Você não foi a causa do meu estresse. Talvez tenha sido a gota d’agua (haha). Eu não guardo mágoa alguma de você e, sim, eu o perdoo. Pensei muito e sei que tudo aconteceu daquele jeito porque teve que ser assim. É como diz o povo: “Não é porque não deu certo que o relacionamento foi ruim ou perda de tempo”. Eu aprendi demais no passar dos anos. Sou eternamente grata a você. Você cuidou de mim. Me fez ter experiências que eu nem sonhava. Foi tudo o que passamos juntos, tudo o que mudou em nossas vidas enquanto estávamos juntos, que me fez ver as coisas como as vejo agora. De um jeito mais natural e simples. Foi depois de pensar muito e reviver toda essa experiência que eu pude entender que eu não sou culpada pela morte de meu pai. Eu não sou culpada por tudo o que acontece de errado. Nem sou responsável pela vida de todos. Eu mereço um momento egoísta. Eu quero ficar sozinha. No meu tempo. No meu espaço. Não digo que preciso de solidão. Não! Isso não. Jamais! Sentir o prazer de estar só e seguir minha vida sem me questionar se o outro está gostando ou não é diferente da dor da solidão. Esta não é um momento. Não é uma escolha. É uma condição. E não pode ser evitada. E sentir solidão, estando acompanhada, é aceitar uma tortura em nossa própria alma. 

_ Divina, um amor igual ao nosso não acontece todo dia. Como você bem lembrou, vivenciamos muita coisa juntos e, mesmo após todos esses anos, nosso amor é algo vivo.

_ Verdade! Nosso amor era algo vivo e, como tudo que é vivo, nasceu, cresceu, amadureceu, teve suas fases de doença e de fartura e um dia tinha que morrer. Eu precisei chegar muito perto do lado de lá pra perceber que a morte é algo natural. Não foi essa a minha vez, mas um dia será. E quando eu estiver cara a cara com Deus novamente eu quero virar pra ele e falar: “Adorei essa passagem! Muito obrigada!”.

_ Você ainda está um pouco perturbada com o incidente. Não está falando coisa com coisa. Está aí filosofando. Vamos tentar ser mais diretos, tá bom? Eu acho ótimo você enxergar as coisas de modo mais bonito, mas não mudou nada entre a gente. Está tudo como sempre foi, falta apenas você querer enxergar. Agora só me diz o que eu tenho esperado tanto para ouvir. Diz para mim que eu posso pegar as minhas coisas e voltar para casa. Diz que você sabe que seu lugar é ao meu lado. Tudo será diferente, eu garanto.

_ Com certeza será. Venha. Me dê a sua mão. Olhe bem nos meus olhos. Pode ver o brilho renovado que há neles? Olhe nos meus olhos. Anda. Não se preocupe, não vai se cegar. 


...

...

...


_ Não!


Páprica.

BC

Para acessar: 
* Páprica  (clique aqui)
* Páprica I - 1ª parte (clique aqui)
* Páprica I - 2ª parte (clique aqui)

terça-feira, 31 de julho de 2012

O rascunho

A todos aqueles que ousaram 
não matar a criança interior 


Abri a porta do carro para ir embora, com a cabeça repleta de pensamentos não lineares, onde cada problema tomava voz em um cenário mental semelhante ao que se imagina da bolsa de valores.
Valores...

Ansiedade
Frustração
Depressão
Irritação
Raiva
Agressividade

Respiro fundo e meu coração me diz:

Tudo bem!
Tudo bem!
Tudo bem!
Tudo bem!

Olho para o lado e lá estava ela. Acho que tinha sete, no máximo oito anos de idade. Pegou um pedaço de bambu e ficou arrastando no espaço entre a calçada e o muro, onde a grama ainda não havia crescido, fazendo um rastro interminável na terra.
Criança na calçada.
Brincar com o que achava por aí.
Riscar o chão com pedaço de tijolo.
terra.

Sintonia
Paz
Nostalgia
Empolgação

Me vem à mente o poeminha de Casimiro de Abreu que todo mundo aprende no colégio e que agora me parece mais triste do que no início dos anos 90 quando o li pela primeira vez:

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,

 Da minha infância querida 

Que os anos não trazem mais



Nessa hora meu coração grita:
 
TUDO BEM! TUDO BEM! TUDO BEM! TUDO BEM!


A criança andava e olhava para trás admirando o que estava fazendo, e sorriu de satisfação. Que sorriso lindo. Jogou o bambu fora, olhou para frente e continuou seu caminho, andando e sorrindo.

Aquele sorriso foi regado pelas palavras de felicitações que recebi de uma sábia escritora:

"(...) que Deus o ajude a realizar os seus sonhos, aqueles que nunca envelhecem e que estão sempre cada vez mais vivos dentro de você".

Vivos dentro de mim
Quebra de ego
Adoro cultivar plantas no quintal como uma velhinha. É o que ficou de minha avó em mim

Pra longe de tudo
Aprendi a arte da humildade e o refinamento da simplicidade. É o que ficou de meu avô em mim

Sou uma das poucas pessoas que tem o privilégio de ter mantido, ainda aos 30 anos de idade, amigos de infância. Sou padrinho do filho de quem brincava comigo de estilingue, dentre outras situações agradáveis de se pensar. Ser adulto significa ter a responsabilidade na medida apropriada para fazer o bem a outras pessoas. A criança interior deve permancer viva, já que faz parte dessa pintura


Meus sonhos, que nunca envelhecem e que estão cada dia mais vivos dentro de mim são a essência do texto, tudo o que foge a isso é rascunho. Rascunho que talvez um dia eu passe a limpo e torne-se essência também. Eu ainda estou escrevendo a história da minha vida.

E assim, mais uma vez, Deus renovou o meu espírito

 

Meu coração começou a cantarolar baixinho para eu dormir tranquilo:

Tudo
Bem


Tudo


Bem



Tudo


Bruno César


sexta-feira, 27 de julho de 2012

PÁSSAROS QUE LATEM - CAPÍTULO XV

Do alto no ninho, sentado em posição de vigilância, o cão refletia acerca das consequências dos últimos acontecimentos, enquanto os passarinhos trabalhavam na reconstrução de seu lar. Sem qualquer aviso, som ou cheiro, uma presença inadvertidamente surgiu ao seu lado.
_ Olá, Mãe Natureza! É sempre um prazer revê-la – disse o cão, mantendo-se imóvel.
_ Olá, irmão-cão! – a Mãe Natureza levantou a cabeça, encheu os pulmões, e continuou – Ah, como estou feliz por voltar aqui! Estava com saudade da energia de seu ninho.
_ A senhora é sempre bem-vinda, Mãe, mas imagino que não tenha vindo apenas para nos agraciar com sua visita.
Ela sorriu e, afagando a orelha do cão, respondeu:
_ Você está certo. É chegada a hora de, mais uma vez, distribuir as missões e eu vim pessoalmente para lhe dizer que é a vez de um pássaro assumir o ninho. Você, meu querido cão, não é mais o Pássaro-mais-velho.


...
PÁSSAROS QUE LATEM – Capítulo XV
O segredo da Mãe Natureza

O cão reuniu seus protegidos no centro do ninho e explicou sobre os novos ares que estavam por vir. A anunciação foi interrompida quando alguns se levantaram e bateram suas asas de modo agitado:
_ Não é justo! A grande tempestade, para a qual fomos preparados desde o início, finalmente passou e agora que já estamos reestruturando o ninho vem um pássaro? Tudo parece em equilíbrio, mas ainda há muito a se fazer – disse o sabiá.
_ Será muito estranho ser aprendiz de um animal que não seja um cão – disse a aracuã.
Sabendo que não há outro modo de reagir às determinações da mãe natureza a não ser aceitar, a irmã-cadela se deitou e colocou a cabeça entre as patas. A irmã-suçuarana, anteriormente o gatinho inseparável e já há algum tempo um ser grande demais para o ninho, vira de costas e diz não aceitar. Ela adora os passarinhos, mas sente a necessidade de encontrar outros de sua espécie. O ninho já havia se tornado pequeno demais para ela e agora sente que não haverá mais razão para continuar ali.
E em meio a piados, grasnados e resmungos, o cão continou:
_ Eu também não entendo, meus pequenos. Depois de todos esses ciclos, de tantas chuvas torrenciais, ser um Pássaro-mais-velho tornara-se algo quase natural, mas as decisões da Mãe Natureza estão além de nossa compreensão e cabe a nós, como seus filhos, respeitá-la sem questionar.
_ Não há um porque de tanta comoção. – disse o pequeno filhote de coruja, com sua penujem destoando de seu olhar de sapiência, a qual vem mais de sua natureza do que de experiências vividas - Você não é um pássaro e merece ser mais do que um pássaro. Mas também não é mais um canídeo. Você ainda parece um cão, mas se tornou um outro ser e um dia irá mostrar ao vale que animal você se tornou.
O cão sorri:
_ Obrigado, minha pequena corujinha. Tenho a impressão de já ter ouvido suas sábias palavras em algum lugar. Meus passarinhos, toda mudança, de certa forma é positiva. Há certas coisas que apenas um pássaro é capaz de fazer e será bom que treinem certas habilidades próprias de aves, como diferentes técnicas de voo. O novo Pássaro-mais-velho está vindo cumprir a missão que recebeu e pousará entre nós a qualquer momento. Eu quero que me prometam uma coisa: não se esqueçam do que aprenderam aqui. Respeitem aquele que será o Pássaro-mais-velho deste ninho e ele respeitará vocês. Quem sabe vocês não possam ensiná-lo alguns truques. Todos do vale sabem que vocês não são meras aves e isso não irá mudar. Olhem, ele está chegando:
_ Olá, irmão-cão. Há quantos ciclos!
_ Seja bem-vindo de volta, irmão-tiê. Meus passarinhos não poderiam estar sob melhores asas. Boa sorte em sua jornada. Cuide de meus pequeninos.

O cão olhou para trás uma última vez. As pequenas aves se juntaram ao seu redor e deram as asas, formando um círculo, que representa tudo o que foi e tudo o que um dia irá ser.



...
E assim, o velho cão deixou o ninho que tentou construir. Enquanto seguia sua jornada, cujo caminho sentia que precisava percorrer, se lembrou das palavras da Mãe Natureza, ditas após o anúncio do fim de sua incumbência, esclarecendo as motivações de sua decisão, e que agora ecoavam em sua mente:
“Olhe ao seu redor, irmão-cão. Tudo ficou claro para mim quando eu observei a nova geração de seus aprendizes. Eu dei a você uma missão: cuidar de jovens passarinhos. Veja o que aconteceu. Os Pássaros que Latem se espalharam por todo o vale. Não são mais um grupo. Eles se tornaram uma nova espécie. E cada pássaro ao sair de seu ninho e voar por conta própria se tornou capaz de criar um novo Pássaro que Late na árvore em que foi pousar. O falcão está sempre de guarda; a coruja o ajuda na instrução dos mais jovens; o bem-te-vi sempre alerta fiscalizando cada voo; o tucano quebra os alimentos mais duros para facilitar a alimentação dos pássaros que não desproveem de seu poderoso bico colorido; a cambacica não espera mais o período de floração e aprendeu a semear árvores frutíferas para se alimentar das flores que quisesse, além de ajudar na alimentação de outros que dependem de frutos, mas ainda são jovens demais, como o sanhaço. Outros, assim como foi com a harpia, ensinam cãezinhos a semear. Só há razão de ser, irmão-cão, aquilo que ainda não chegou. Não haverá fim para essa nova realidade e, portanto, não há mais nada a se fazer aqui. Estou satisfeita. Um dia, você aceitou com relutância a sua missão. Agora aceite que você a cumpriu. Aceite. Sua missão terminou.”

“Terminou...” – repete mentalmente o cão – “Terminou”. Ele adentrou na Floresta de Eucaliptos, que os passarinhos cultivaram; atravessou o Deserto de Ametista, assim como o Bosque das Árvores Secas; subiu pelo Riacho da Cascata Ascendente; descansou um pouco sob a Árvore-do-que-poderia-ter-sido e lá conversou um pouco com o protetor do lugar, o filho da água; correu, pulando e latindo, satisfeito, pelo Jardim das Margaridas e se encostou entre o Eucalipto Centenário e a Pedra do Firmamento. Ali, deitado, repensou em tudo o que passou, olhou para a lua e disse o último “muito obrigado!”. O cão respirou fundo. Sentiu-se feliz pelo cheiro agradável de musgo e terra. Colocou a cabeça entre as patas, fechou seus olhos e, finalmente, se tornou um com a natureza.

Uma brisa fria percorreu por todo o vale. Longe dali, o beija-flor, que estava treinando seus novos protegidos, parou no ar e voou para cima, rápido e em silêncio; do outro lado da floresta, a harpia-azul fitou seus cãezinhos, os quais atendendo o olhar foram para a toca e se deitaram, esperando seu retorno. Da mesma forma, os oito passarinhos que estavam aos cuidados do novo Pássaro-mais-velho, assim como dezenas de outras aves, que quando filhotes aos cuidados do cão se destacaram entre os seus e que agora lideravam pequenos grupos de animais, repassando o que aprenderam, voaram e pousaram no topo das árvores mais altas. Olharam para lua, respiraram fundo, abriram suas asas e uivaram. Uivaram por toda a noite.

Naquela noite, ouvia-se o uivo em uníssono dos Pássaros que Latem e nada mais além.



...
DIAS DEPOIS.

_ Levanta e venha comigo! – disse a Mãe Natureza. Disse e foi para o alto da montanha central.
O ser que um dia foi um cão abre os olhos, olha para o que se tornou e sorri. Ele se levanta e voa até onde está a Mãe Natureza, e de lá seguem voando juntos observando e acompanhando, de um horizonte ao outro, o desenvolvimento daqueles que serão, para sempre, os seus passarinhos.

FIM
Era uma vez um cão de rua que treinava a si mesmo, que um dia recebeu a missão de ser um Pássaro-mais-velho, que travou batalhas e sobreviveu a tempestades, que viu seus pequenos pássaros crescerem e receberem eles próprios as suas missões, que mereciam ou necessitavam, e que conseguiu da mãe natureza, por meio de uma estranha missão, aquilo que mais desejou: ser livre.


BC
P.S.: Com essa missão, eu aprendi mais do que ensinei. Obrigado por tudo, meus passarinhos! Muito obrigado!



 

segunda-feira, 18 de junho de 2012

LEMBRE-SE DE MIM


Eu olho ao meu redor e vejo uma caixa de madeira sobre a mesa
A caixa olha para mim e me conta uma série de histórias
Ela me lembra de quando a vi pela primeira vez ainda em sua casa
De quantas vezes a abri e fechei
Do dia em que quase a deixei cair
De quando a limpei
Anos de histórias contados em um olhar


Me lembro de onde estou
E olho para o outro lado
Vejo uma prateleira
Sobre a prateleira, uma cuia de chimarrão
A cuia vira para mim e me conta uma história muito bonita
Ele me conta de quando eu experimentei chimarrão e me pareceu chá de capim
De como meu avô, sem ser gaúcho, aprendeu a gostar disso
Ele falando com seu português errado, tão lindo e saudoso:
“Não é bom não. Só fica bom depois que vicêia.”
Eu gosto das historias que a cuia de chimarrão me conta


Eu já me distraí mesmo dos estudos, então me deixo levar
Apenas busco mais um contador de histórias
Acho aquele pequeno duende que ganhei de aniversário em 1999
O duende se senta sobre o suporte onde está localizado e começa a contar “causos”
Me lembra de quem me deu o presente
E de como era moda gostar de coisas esotéricas no fim dos anos noventa
Observa que quase nada no mundo mudou na tal era de aquário
Que alguns dizem que já chegou
E me diz que se impressionou no quanto eu mudei
Desde que era apenas um adolescente filhinho da mamãe metido a hippie
Agradeci ao elogio do duende e me pus a pensar


Essa “loucura” também pode acontecer com você, caro colega que está lendo esse texto?
Se acontecer, por favor, me conte
Olhe agora para algum objeto que está ao seu lado
Na mesa
Prateleira
Ou em cima de sua cama
Escolha algum presente ou lembrancinha qualquer que guardou e que está ao seu redor
Agora mesmo, próximo ao computador
Tem algo aí perto
Eu sei
Olhe para esse objeto e pergunte:
“Qual a sua historia?”
Quem lhe deu? Quando? Se você comprou, em qual circunstância?
Não tenha vergonha de surtar uma vez na vida
Acredito que um surto tão lindo é uma experiência que merece ser vivida e compartilhada


Desejo que todos possam ouvir histórias de pequenos objetos
Lembranças de entes queridos, que muitas vezes não existem mais, fisicamente, em nossas vidas
Tem quem não goste de histórias, mas como disse um sábio:
“Não é bom não. Só fica bom depois que vicêia.”
O universo precisa se renovar e por isso tudo muda tão rápido
O para sempre é relativo e de um modo ou de outro vai acabar
E quando você se for?
Será apenas uma memória agradável que irá gradualmente se apagar?
Seja lembrado!
Deixe um pouco de você
Seus valores
Seu carinho
Já pensou nisso?
Um objeto
Alguma simples lembrancinha
Guarda para sempre um pouco de você
Quando você se for, esse pequeno objeto irá contar a sua história
Você fica para sempre no presente que você dá de coração
Afinal, é tudo o que irá restar de você um dia

Uma doce lembrança 


BC

domingo, 13 de maio de 2012

Páprica I - Ela não sabia dizer não (2ª parte)


DIVINA MÃE

A você que é mãe, seja de criação, adoção, afeto ou gestação. Você tem a sua própria história, seu cenário pessoal, mas seja quem for, você é uma mãe Divina e essas palavras são para você.



“Estou cansada.”

Descanse, Divina. A guerra acabou. Você lutou muitas batalhas, sobreviveu a torturas sem fim. Desbravou caminhos inimagináveis e carrega, sob a sua pele, as cicatrizes de sua alma.

A vida às vezes parece injusta, eu sei. Quantas vezes você desistiu de algo para ajudar alguém? Quantas lembranças se passam em sua cabeça ao se recordar dos momentos em que ficou calada para evitar uma discussão? Quantas vezes você olha ao seu redor e tenta entender o que você fez para merecer isso? Por que os outros conseguem e você não? Quantas vezes você sorriu para disfarçar o sentimento torturante de humilhação? Quantas vezes você se deitou no sofá, cansada com o dia de amanhã?

“ Quem é você?”

Você se entristece, Divina. Chora de frente ao espelho, tentando se lembrar daquela mulher que você já foi um dia. Onde está aquele brilho no olhar? Para onde foi aquela menina que tinha certeza de que teria muitas conquistas? Tantos sonhos, esperanças e lembranças que se foram em meio à luta. Sabe por que a jovem sonhadora morreu, Divina? Porque ela era fraca! Sabe por que você surgiu no lugar daquela moça que achava que podia tudo? Porque você, Divina, é forte! 

Quando você anda pelas ruas, milhares de pensamentos, metas de conquistas e superação permeiam sua mente, enquanto a insegurança e o medo correm em suas veias e enfraquecem seus braços e pernas e você se cala, pois acredita que não adianta mais. Você não sabe, mas, enquanto isso, aqueles que a veem passar pensam: “Como eu queria ser como ela e ter essa confiança!”.

Você conseguiu. A luta incessante acabou por um motivo muito simples. Você já venceu! Olhe ao seu redor e perceba as suas conquistas. Veja o que você construiu. Olhe daqui, longe de tudo, para que possa enxergar. Observe com cuidado e respeito o mundo que gira ao seu redor. Admire e ame o reino que você criou. Saboreie o que plantou durante todos esses anos.

“Onde eu estou?”

Rainha guerreira. Você está onde ainda não é o seu lugar. Você, mãe, deve estar ao lado de seus filhos. Eles precisam de você, mãe Divina. Acorde!

“Eu não entendo...”

Acorde!

_ Mãe, você consegue me ouvir? Aperta minha mão se estiver me ouvindo. Ela apertou, doutor!
_ Ela vai ficar boa, mas precisa descansar.
_ Certo... estou indo! Ouviu mãe, você vai voltar pra mim. Eu vou ficar ali na sala ao lado. Estou aqui pertinho. Descansa mais um pouco e assim que a senhora estiver mais forte, a gente vai pra casa. 

“Casa...”

Páprica.

BC



Páprica

Páprica (1ª parte)


domingo, 1 de abril de 2012

Páprica I - Ela não sabia dizer não (1ª parte)


Dizem que Divina estava lavando as roupas de sua família naquela tarde de sábado, ouvindo a música Nossa Senhora de Roberto Carlos. Lavava e cantava e sonhava. Mulher sonhadora. Torcia a roupa e ia longe, quando a dor veio, a tontura, a fraqueza nos joelhos. Ela se sentou no chão em frente ao tanque, sem forças para gritar, pensando em onde estaria o seu menino. A mão vai ao peito.
_ Deus, que dor.
Sua cadela vem até ela. Cães sentem quando algo está errado. A cachorrinha começa a latir, talvez clamando por ajuda.

DIVINA
Trinta anos atrás. Era uma quarta-feira.

_ Pai, vai ter uma festa sábado...
_ Fica quieta e segura direito essa escada, menina! Vou acabá caindo daqui se você ficá aí distraída pensando em farra em vez de firmá esse trem direito. Eu podia chamá sua mãe pra segurá calada, mas cê sabe que ela num pode fazê força.
_ Por que o senhor não chama um eletricista? Vai acabar tomando choque.
_ Vou é arrancá esse fio e sentar nas suas perna se você continuá com essa conversa.
_ Tá bom... desculpa! É que o senhor tá sempre arrumando esse fio e todo dia dá mal contato e aí tem que mexer de novo.
_ Ave! Que raio de festa é essa?
_ É só festinha do pessoal aqui da rua na casa da Neire, pai. Não vai ser nada demais.
_ Se não vai ser nada demais, porque é que você qué tanto ir? Aposto que aquele primo dela vai tá lá.
_ Que primo?
_ Ora, aquele moleque, Ivan, filho do Alcides. Se você tivesse falado que ele ia e que não ia ficá perto dele eu até podia pensá no assunto. Agora cê quer me fazer de bobo? Você num vai é em lugar nenhum, menina sonhadora. Vai já pro quarto.

Quinta-feira, na escola.

_ Você vai certeza, não é, Divina?
_ Meu pai não deixou...
_ Ah, nem. Às vezes eu acho que você ainda é aquela meninha roceira que eu gostava de atazanar.
_ E às vezes você ainda é aquela menina cruel que fazia eu não querer vir pra escola. Meu pai só quer cuidar de mim. O que eu vou fazer? Se ele fosse igual ao seu pai e nem soubesse que eu existia eu também não ia me preocupar.
_ Nossa, Divina! Quem é a cruel aqui?
_ Desculpa! É que você me irrita. Se eu não posso ir, eu não posso e pronto.
_ Tudo bem. É que o Ivan vai estar lá. E ele fica o tempo todo perguntando de você.
_ Ele fica?

Sexta-feira, voltando para casa pelo caminho da praça, onde todos os dias se reuniam os garotos do bairro. Ivan sempre entre eles.

_ E aí, Divina! Jóia?
_ Oi, Ivan!
_ Tem tempo que não te vejo por aqui. Tá perdida?
_ Não... estou indo pra casa. Voltando da escola.
_ Mas sua casa fica pro outro lado.
_ Resolvi andar um pouco.
_ Hum... Você vai à festa da Neire amanhã, né?
_ Eu... É que... Sim, eu vou!
_ Ótimo! A gente se vê lá!
Sábado à noite, hora da festa.
_ Boa noite, pai!
_ Nem acabou a novela e cê já vai dormir?
_ Estou com sono.
_ Então vai pra cama. Boa noite, filha.
_ Boa noite, pai. Te amo!

...

_ Já dormiu? Abre aí! Cê precisa segurar a escada. Os fio tão dando curto. Daqui a pouco sua mãe e eu vamo ter que acender vela.
_ Espera pai, não abre!
_ Que maquiagem é essa moleca? Precisa ficá pintada desse jeito pra sonhá?
_ Eu vou à festa, pai! Todas as meninas da minha idade vão. Estou cansada de todo mundo rir da mocinha do interior. Desculpa pai, mas a menina sonhadora aqui não vai ficar segurando escada sábado à noite. Eu estou de saída.
...

Madrugada de domingo, após a festa.

_ Se divertiu na festa, moça? Tava lá dançando enquanto...
_ Mãe, o que meus tios estão fazendo aqui?
_ Filha, vem cá, vem. Me abraça, filha!
_ O que aconteceu, mãe? Cadê meu pai?
_ Seu pai sofreu um acidente, filha. Ele tava arrumando os fio e caiu da escada e bateu a cabeça. Ele tá lá no quarto com o doutor. Mas ele não tá bem não, filha. Meu velho não tá bem não.
_ Não chora mãe! Eu vou lá ver o pai!
_ Se pelo menos alguém tivesse segurado a escada.
...

O pai faleceu seis dias depois.
Ela nunca mais disse não.

Páprica.

BC



NOTA: PÁPRICA foi um texto escrito por mim há um ano e publicado no blog em 17 de abril de 2011, o qual pode ser lido aqui: http://bcmaoli.blogspot.com.br/2011/04/paprica.html. O trabalho mostra um momento na vida de seis personagens que vivem suas vidas sentindo que falta algo. Eles sentem um vazio no peito, uma falta de tempero em suas vidas. Reler um texto meses ou anos depois, mesmo que de minha autoria, faz com que eu tenha outra interpretação da ideia passada, como se não fosse minha. Hoje acho que a essência do que fora abordado em Páprica pode ser melhor explorada e é essa a idéia dessa nova seqüência. Em analogia a outras mídias, pode-se entender que o primeiro Páprica foi o episódio piloto que agora se tornou uma serie focada na vida dos personagens em diferentes fases de sua maturidade e a busca por algo que eles ainda não sabem bem o que é.

domingo, 18 de março de 2012

EU QUERO LER VOCÊ


E aí, tudo bem? Sente-se e, por favor, fique à vontade. É melhor eu ir direto ao assunto. Chamei você aqui porque eu preciso de sua ajuda. Tenho uma teoria e preciso que confie em mim para que eu possa comprová-la. Acredito que todos nós somos textos. Não apenas as pessoas, mas tudo o que existe. Tudo é um texto a ser lido e, como sabe, eu tenho essa obsessão. Eu preciso ler as coisas.

Ler algo não é apenas transformar um objeto em palavras. Um texto só é realmente lido se for sentido. Cada tipo de texto apresenta um determinado estilo de estruturação, e é preciso compreender esse estilo para que seja possível senti-lo. Alguns chamam de tipo, forma, gênero do texto, mas não estamos aqui para discutir regras gramaticais, então, para facilitar nosso experimento, chamaremos de tipologia textual. Espécimes da natureza que não tiveram a intervenção do ser humano geralmente são fáceis de serem lidos, pois se tratam, em sua maioria, de poemas e textos descritivos, uma ou outra fábula. No entanto, há textos que só consigo ler e dissecar após um estudo sobre sua forma. Adapto-me ao texto e então eu consigo identificar e decifrar os códigos. O problema a ser solucionado com a comprovação dessa teoria é que há textos que eu não consigo sentir. Não consigo decodificar sua essência, e isto está levando embora o que resta de minha sanidade. É aí que você entra. Eu vou me abrir para você, para que possa confiar em mim. A partir daí você conseguirá ler quem eu sou. Em troca eu quero que me ajude a identificar sua tipologia textual e me permita a maior intimidade que Deus pode nos autorizar. Permita-me ler você.

Algumas pessoas se limitam a sua própria tipologia textual e a ler aqueles que são de mesma tipologia, tendo problemas de convívio com quem é de um gênero diferente, sem entender o real e simples motivo da falta de sintonia. Ao entender isso, será possível ler o próximo e ter uma compreensão mais íntima da pessoa. Para esclarecer, vou dar um exemplo de tipos de textos que alguns colegas que trabalham comigo no cartório demonstraram ser. Era horário de almoço e estávamos todos andando na calçada em direção a um restaurante, quando presenciamos uma velhinha sendo atropelada ao atravessar a rua. Cada um teve uma reação diferente. Um colega, cuja tipologia textual é uma novela, explicava o acontecido para todos que ali chegavam, de modo detalhado e demorado, com excesso de acontecimentos narrados e todo um enredo para a situação da pobre senhora; outro, um texto lírico, viu ali o fim trágico de uma senhora que por anos procurou ir ao Fórum para resolver um problema que, para ela, não teve o fim esperado; uma colega, um texto informativo, viu apenas que a senhora não atravessou na faixa, mas que o motorista errou pelo excesso de velocidade e os herdeiros poderiam "entrar com processo de indenização"; o último colega presente, uma epopéia, por revolta, disse que se pudesse daria uma surra no motorista que a atropelou (não, não daria surra nenhuma... ele é uma epopéia). Foi quando percebi que todos éramos tipos diferentes de texto e cada um viu o que foi capaz de ver conforme o texto que é. A partir da descoberta da tipologia textual de meus colegas, eu pude vê-los de um modo que antes não era possível. Por mais amigos que fôssemos, apenas após eu entender os textos que eles são, é que eu pude lê-los com clareza e só assim pude entendê-los melhor e admirá-los ainda mais. São textos lindos.

Definir o tipo de texto que você é não é algo que se faz superficialmente, julgando o modo que se leva a vida ou sua profissão. Se seguirmos por esse caminho, minha vida não é um texto, é um filme Sessão da Tarde dos anos 80. O maior clichê piegas. Já quanto à minha tipologia textual, não estou tão certo agora. Com base nesse pensamento, analisarei minha tipologia por exclusão. Não me identifico com o poema, porque vejo poema como a poesia por si mesma. Existe poesia em todas as coisas. Existe poesia em uma árvore dançando com o vento; nas asas de uma mosca que voa pela cozinha; no caminho brilhante da gosma deixada por uma lesma; no canto dos pássaros e em patos no lago. Há poesia na novela, no conto, na crônica, no romance. O poema é a poesia traduzida e codificada. Definitivamente eu não sou um poema. Complicado me identificar. Todos mudamos com as experiências diárias. Eu sei que eu mudei. Creio que é por isso que é mais fácil definirmos quem éramos, do que quem somos agora. Então, vamos lá! Eu já fui um conto, uma fábula, um texto meramente informativo, uma novela onde a cada mudança de tipologia textual, eu continuava alternando entre os personagens que fui um dia, os quais muitas vezes entraram em conflito entre si e terminei como um romance, com um núcleo principal bem definido e outras tramas menores que se desenvolviam simultaneamente. Como as tramas tiveram uma conclusão satisfatória, o texto que eu sou mudou. Os vários personagens, com suas tipologias textuais específicas, foram eliminando-se um a um, até que sobrasse o que foi batizado de “O pequeno”, e assim eu me tornei uma crônica. É isso! Eu sou uma crônica!

Agora você já tem a chave para ler o texto que eu sou. Apesar da impressão estranha semelhante a me despir e permitir que veja minha nudez, digo a você que é uma sensação satisfatória. Facilitar o caminho para que eu seja lido em minha essência é algo mais prazeroso do que imaginei a princípio. E agora? O que acha? Está tudo bem? Confortável? Sim? Que bom, pois é a sua vez! Olhe ao seu redor. Selecione algo, alguém ou alguma coisa que aconteceu hoje. Pense no que não sai de sua cabeça a ponto de mudar seu comportamento. Concentre-se nisso. O que essa coisa lhe faz pensar? Leia a coisa. Extraia o texto e analise o modo como você se sente. Assim você poderá se conhecer melhor. É hora de se despir. Mostre-me a sua tipologia textual! Eu quero ler você!



Que tipo de texto você é? Responda nos comentários, de forma direta se preferir, do tipo marcando “x”!
eu sou:
( ) um conto;
( ) uma novela;
( ) uma crônica;
( ) um romance;
( ) um poema;
( ) um cordel;
( ) uma fábula;
( ) outro tipo de texto: ____________

BC