sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O Jardim



Bem-me-quero, mal-me-quero, bem-me-quero, mal-me-quero...

 


“quantas cores,
quantos aromas,
 quantos amores...
inúmeros, inúmeros.”






TESTE-BASE


Antes de começarmos, apresento a você um teste. É como aqueles que você fazia lendo revistas de adolescente, onde tinha que marcar se preferia fazer compras no shopping ou no supermercado e no fim mostrava um resultado dizendo que você é uma pessoa legal e comunicativa.
Sem pensar muito, marque a alternativa que primeiro vier à cabeça. A primeira coisa que vier à cabeça, hein? Seja honesta!



1)     Quando um amigo te liga, antes de atender você pensa:
a.     Oba, uma ligação!
b.     Ai, que saco!
c.     O que será que ele(a) quer dessa vez?


2)    Quando percebe que vai passar o fim de semana em casa com sua família, o que vem à mente:
a.     Oba, mais tempo juntos!
b.     Ai, que saco!
c.     O que vão cobrar de mim dessa vez?

3)    Quando você vai ao médico?
a.     Quando sente muita dor
b.     Em check-up anual
c.     Quando vai fazer seleção de emprego

4)    No trabalho, quando você não recebe um elogio por um serviço ao qual se dedicou, você pensa:
a.     Na próxima vez eu vou me esforçar ainda mais.
b.     Ai, será que não ficou bom?
c.     Quer saber, vou é cruzar os braços a partir de agora



5)    Quando você mais pensa em uma força superior?
a.     Quando para pra admirar a natureza
b.     Quando precisa de um desejo realizado
c.     Ao acordar

6)    Qual desses cantores você prefere:
a.     Leonardo
b.     Djavan
c.     Lady Gaga

7)    Qual desses pratos você mais gosta:
a.     Macarrão
b.     Arroz, feijão, bife e batata-frita
c.      Petit gateau

8)    Para qual desses lugares você gostaria de ir agora:
a.     Uma praia no nordeste
b.     Um lugar isolado no meio da floresta
c.     Um café em Paris.


O resultado do teste será encontrado no texto a seguir =>


APRESENTAÇÃO


O jardim das margaridas foi um texto escrito por mim em 1999 para participar da semana cultural no colégio em que eu estudava. Ganhei pontos para a aula de português, mas não ganhei o concurso da tal semana cultural.

Ter perdido essa seleção de trabalhos fez muito bem para mim, pois, ainda menino, tive que aprender a lapidar textos de modos variados. A partir daí compreendi que o mundo se dividia em dois: o mundo com as coisas como eu gosto, e o mundo com as coisas como os outros gostam. Os dois mundos precisam ser respeitados.

Desde então, o Jardim das Margaridas se tornou uma referência para mim. Eu o vejo como um mapa para controlar a autoestima, a sensação de vazio, ambições, orientar planos e sonhos, crenças e vontades. Vou registrar aqui a ideia central passada no texto, de modo mais direto, de acordo com a minha atual interpretação dessa obra.


B.C.




O JARDIM

Você sente que a vida é uma maratona, mas por mais que treine, sempre próximo da linha de chegada, você tem uma câimbra? Se sente como um lampião no meio do mato, que tem sua luz própria, mas acaba atraindo um monte de insetos? Seus planos perfeitos não se concretizam e não sabe o porquê? Se esforça em prol de uma causa e não recebe o devido reconhecimento?
Isso acontece porque você está destruindo o jardim das margaridas. Sim, eu sei que acha que essa baboseira não faz sentido. Calma, eu posso explicar.
Se lembra de quando era criança e pegava uma margarida e ficava brincando: “bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer...”, e no fim você sabia se era bem ou se era mal (muitas vezes enganando a margarida para que a última pétala sempre acabasse no bem-me-quer)? Pois bem, você conseguia duas coisas: tinha a sua resposta e uma margarida morta.
O mesmo ocorre com tudo no mundo: com a saúde do nosso corpo e da nossa mente; com nossos familiares; com nosso trabalho; com nossos amigos. Tudo são pétalas de possibilidades. Imagine a seguinte situação: Você acaba de começar um relacionamento. Esse relacionamento é uma margarida que nasceu. Você pode cheirar a margarida, pode admirar suas cores e até conversar com ela igual a uma doida (vai me falar que você nunca conversou com plantas? Converse!), mas aí o que você faz? Você começa o bem-me-quer.
Logo, a primeira pétala é arrancada:
_ Será que ele tem outra?
E então a segunda:
_ Ele gosta de mim ou só quer me comer?
A terceira:
_ Esse tom de voz está escondendo alguma coisa.
E assim, vão-se as outras pétalas, e o que você tem agora? Você conseguiu duas coisas: você tem a sua resposta e uma margarida morta.
Agora pare e pense no que foi dito antes. Da mesma forma acontece com outras coisas. Pense em outras situações que se encaixam. Quantas margaridas foram destruídas nessa brincadeira de questionar demais? De pensar demais? Relacionamentos, trabalho, estudos, família? Quantas horas de sono você perdeu tentando achar respostas que só servem para destruir o jardim?
“(...) e lá estava eu, em meio a um vasto jardim, de flores despetaladas. Deus, eu só queria um abraço.” (O jardim das margaridas – Maoli)



O DONO DO JARDIM

Tem um segredo que você precisa saber, mas não pode contar para ninguém. O jardim não é seu. O jardim não é meu. Não é um jardim DE margaridas, é o jardim DAS margaridas. Elas são plantadas por Deus e donas de si próprias. Nós apenas devemos aproveitar o jardim, adubar, regar e proteger as pétalas com todas as nossas forças.
“Agora, Arjuna,
Levata-te e Luta!” (Bagavad gita)




VOCÊ TAMBÉM É UMA MARGARIDA

E quanto a sua visão de si mesma? Você e a sua autoestima já provaram todos os sentimentos conhecidos e muitos outros inimagináveis. Vocês já se amaram, já se odiaram, já caíram nos tapas uma com a outra, sem perceber que as duas são você. Já se magoaram a ponto de ficar de mal. Já fizeram as pazes. E quando tudo está bem, a história se repete. Agora pense em você como sendo uma das margaridas. Você é uma flor, com suas cores, seu aroma e suas funções importantes como as de produzir néctar, atrair polinizadores, além de gerar e receber pólen, mas então, o que você faz? Começa a brincadeira: “Bem-me-quero, mal-me-quero, bem-me-quero...”. Assim, como quando era criança, muitas vezes o mau-humor passa e você se esforça para chegar ao resultado bem-me-quero. Parabéns! Você conseguiu duas coisas: trabalhar sua autoestima e mais uma margarida destruída. Você.

“Não tenha medo, olhe a sua volta. Vê? É o maravilhoso jardim das margaridas! (...) Quantas cores, quantos aromas, quantos amores... inúmeros, inúmeros.” (O jardim das margaridas – Maoli)



ADUBE. REGUE. PROTEJA AS SUAS PRÓPRIAS PÉTALAS
Alimentar a autoestima é importante e necessário, afinal, como diz a sabedoria popular: “Se você não se amar, quem é que vai?”. Com isso podemos pensar: E se você se amar, quem mais vai? A resposta é: todo mundo! Então, não puxe suas próprias pétalas, nem as pétalas de ninguém. Viva para proteger o jardim das margaridas daqueles que tentam despetalá-lo.
Olhe no espelho e dê uma chamada de atenção em você mesma. Não seja brega dizendo: “Você é bonita! Você é forte! Eu posso, eu quero, eu consigo!”. Olhe no fundo dos seus olhos e diga: “PUTA QUE PARIU, COLEGA! Assim não dá!”. Mais umas broncas e depois, quando seu reflexo estiver meio murcho e com as orelhas baixas, aí sim. Vai! Seu reflexo merece. Você pegou pesado. Chame o reflexo de volta, dê uma piscadinha e diga: “Gostosa!”. Agora sim você está pronta: se levanta, sacuda a poeira e deixe o jardim renascer. Ele sempre renasce quando deixamos acontecer.


“Precisamos aceitar nossos defeitos, perdoar nossos erros e entender que somos, acima de tudo, amigos e parceiros que se uniram para, juntos, seguir o caminho da vida superando dificuldades. E se não der certo mesmo com toda essa compreensão, eu troco de marido, oras! Eu sou gostosa!
Vou viver mais em vez de fazer planos. Ser feliz e todas as outras conquistas será conseqüência!
Tenhamos todos um natal muuuito feliz e um ano novo cheio de saúde e prosperidade!!!
Minha lista de resoluções para o ano novo: Vou desligar o celular e fazer caminhada alguns dias na semana. E minha gordura localizada irá comigo ao clube sempre que ela quiser, graças a Deus!”           

A NOVA ROTINA

Para ajudar a manter o jardim saudável é preciso trabalhar uma nova rotina. Uma rotina leve e que traga satisfação. Para a sua elaboração, é preciso compreender que uma flor sozinha é admirada, mas não forma um jardim. É preciso flores diferentes, lembrando que diferença gera atritos e que atritos são necessários para lapidar qualquer material. Atritos não no sentido de brigas, mas no sentido de conviver com pessoas que enxergam o mundo de modo diferente do seu. Não existe “o” jeito certo. Existem vários jeitos certos. E cada modo de enxergar o mundo precisa ser respeitado. Se todos fossem como você o mundo seria um lugar melhor, mas logo você acharia tudo um tédio.
Calcule seus passos a curto, médio e longo prazo. Mas não faça planos de comprar a lua. Não planeje coisas legais se forem improváveis. A felicidade vem de pequenas vitórias e as grandes conquistas são consequência da pessoa feliz. Planeje o futuro de modo racional, calculando uma meta possível de ser alcançada por um ser humano médio e calculando também qual o preparo necessário para se chegar lá. Como por exemplo, adquirir um imóvel. Você não pode arrancar pétalas pensando “Eu vou conseguir, eu não vou conseguir, eu vou conseguir”. Planeje o básico: para comprar um imóvel é preciso dinheiro. Como se consegue dinheiro de modo honesto? Trabalhe! Seja útil e terá o retorno. Ser útil funciona como um adubo para o jardim. Faça alguma outra flor mais bonita e você obterá as respostas que procura.
É um ciclo. E quanto mais simples esse ciclo, mais satisfação trará.

“Simplicidade é o que há de mais sofisticado.”



A RECEITA DO BANQUETE

Responda de modo livre, porém objetivo, em uma linha:
1) Você se ama?

2) Você ama mais alguém? Quem?

3) Quem você não suportaria perder para sempre?

4) Quem você gostaria de fazer sorrir?

5) Quais companhias você gostaria de ter ao seu redor em seu tempo livre?

6) Quais lugares do Brasil e do mundo você gostaria de conhecer e ao lado de quem?

7) Qual esporte você vai praticar?

8) Qual música vai ser parte da trilha sonora da sua vida?

9) Qual seu prato favorito?

10) Qual aroma você gosta de sentir a ponto de fazer você sorrir?





  
CONCLUSÃO

Agora você já se conhece melhor.
Agora você já sabe que a vida é um jardim que tem dono e que cabe a nós cuidarmos dele.
Agora você já sabe que você é uma das tantas margaridas desse jardim, e que não deve retirar pétalas de outras flores e nem mesmo as suas.
Agora você já sabe que deve mudar sua rotina, não apenas para não destruir o jardim, como para evitar que outras pessoas o façam.
Agora você já sabe que deve pegar esse último questionário e segui-lo como a um roteiro.
Use-o como início da sua nova rotina, com a qual, você se sentirá mais forte para ajudar a cuidar do jardim.
Compare com as respostas do primeiro questionário, o qual serviu para você começar a se conhecer.  
Compre um caderno e registre a sua evolução pessoal.
Após um período, crie novas perguntas e se dedique às suas novas respostas.
Releia suas anotações, não como um diário, mas como uma receita de um banquete delicioso que você irá organizar.
E essa mesa farta que você está aprendendo a preparar, com tudo o que há de mais gostoso... É a sua vida.
Prepare-a e sirva-se à vontade!

“Dentro dos limites que Deus me permite, eu escrevo a minha vida como eu quiser.” (Divina em Páprica I)

B.C.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Páprica I - Ela não sabia dizer não (3ª parte)



Ela abre os olhos e observa a meia luz que passa por entre as frestas da cortina, sem saber ao certo se está amanhecendo ou se é entardecer.
Olhar vazio.
Franze um pouco a testa quando começa a se lembrar da dura decisão que terá que tomar muito em breve. Mesmo assim está satisfeita, pois experimentou a leveza da maior liberdade que alguém pode sentir: esquecer o próprio tempo. Abre as janelas e contempla as cores do céu límpido. Tudo é tão lindo, mas falta alguma coisa.

Divina está de cama há dias. Sete dias.

Quando ela saiu do hospital, fez o que todos fazem quando me veem assim, cara a cara: começou a repensar sua vida. Sua reação a essa experiência foi interessante. Enxergou tudo com clareza e viu um mundo vazio. Sem dor, tranquilo, mas vazio. “Um vazio de um horizonte a outro não serve de companhia. Que saudades sinto dos tempos de trevas.” - pensava, deitada naquela cama.
O corpo físico sobreviveu, mas ao conseguir ver o mundo com mais maturidade espiritual, chegou a um ponto em que precisou se isolar, me chamando para conversar quando sentisse vontade, para entender o que realmente aconteceu com ela ao longo de sua própria história.

No primeiro dia, ela me contou que foi responsável pela morte de seu pai, que faleceu devido a um traumatismo craniano ocasionado pela queda de uma escada. Eu perguntei se ela empurrou a escada e ela me disse que não a segurou.
_ Está me dizendo que não foi minha culpa? – Questionou.
Expliquei para ela que ele não caiu porque a escada se desequilibrou. Ele teve uma vertigem. E como era um homem muito grande, ela jamais conseguiria segurá-lo. Ele cairia de qualquer jeito, só que de modo mais triste, pois ela iria presenciar aquela cena trágica. Ela ficou pensativa.

No segundo dia, ela perguntou minha opinião acerca de seu casamento. Disse-me que seu pai nunca gostou de seu marido, mesmo anos antes de ficarem noivos. Que nunca se entregou verdadeiramente por que pensava sempre na reprovação de seu pai. Eu procurei saber se o pai deixou claro que não aprovaria seu casamento e ela me respondeu que não sabia dizer. O pai só falou que não queriam os dois juntos em uma festa de adolescentes da vizinhança. Questionei se ela deixaria seu filho se envolver com uma desconhecida, quando ele ainda não tinha maturidade. Ela sorriu.

No terceiro dia, conversamos sobre seus filhos. Um adorável casal de jovens adultos. Ela me contou que sempre amou ser mãe, mas lamenta ter abandonado os estudos para criá-los. O sonho dela era fazer uma faculdade. Acho que ainda é. Chorou ao falar do desapego deles durante a adolescência e como gostaria de ter feito mais para que eles tivessem ido mais longe na vida. Palavras dela. Procurei me informar se ela conhece alguém cujos filhos fossem perfeitos. A resposta foi não. Perguntei quem ficou ao lado dela, além de mim, nesse momento de dificuldade que ela está passando.
_ Meus filhos – ela respondeu chorando e rindo. Depois repetiu: _ Meus filhos – dessa vez disse rindo e chorando.

No quarto dia, ela me explicou que as plantas no quintal e o jardim na frente são a resposta da necessidade, nunca superada, que ela tem de ter uma casa tão organizada quanto à da mãe dela foi um dia, onde a bananeira no quintal e a trepadeira no portão davam àquela casa um aspecto de lar. Expliquei que a nostalgia faz com que nos sintamos insatisfeitos com nossas conquistas. Contei um segredo meu e da mãe dela: a mãe nunca estava satisfeita com a casa. Achava que a trepadeira não crescia o suficiente para tampar o muro e a bananeira dava bananas de menos. O lar perfeito veio da cabeça de Divina enquanto criança. E expliquei que muitas vezes a visito porque a casa dela tem um ar de lar. Até mesmo para mim. Ela respira fundo, orgulhosa.

No quinto dia, eu que dou início à conversa. Falo sobre como deve ser cansativo ser a salvadora dos parentes. Ter essa necessidade de se doar para ajudar a mãe, os irmãos e até mesmo o sogro, principalmente quando acompanhou seu tratamento médico, quando pareceu que ninguém mais poderia; que se ela não fizer algo ninguém o fará. Concluí meu raciocínio dizendo que talvez não façam nada porque sabem que ela irá cuidar de tudo mesmo. “É meio cômodo para eles, não acha?”. E como foi triste quando nos poucos dias em que não havia condições de ajudar, teve que ouvir que não se dedica, que não se importa com o próximo.
_ Eu devia ter deixado eles morrerem? – ela perguntou. Conclui explicando que ela não errou em se dedicar demais, o erro foi esperar algo em troca. Infelizmente, para ela, essa característica de se doar, mesmo que não tenha o devido reconhecimento, foi escolha minha em sua criação. Eu quis assim. Pedi desculpas a ela por isso. Ela sorriu.

No sexto dia, ela finalmente estava pronta para conversar mais profundamente sobre seu relacionamento. O desgaste. As frustrações. As decepções. E me contou que teria uma importante decisão a tomar até o dia seguinte. Ela contou que leu em algum lugar sobre isso, sobre envolvimento entre pessoas diferentes, comparando relacionamentos com textos. Que a vida dela se tornou uma novela, mas que ela é um poema. E que ela e o marido são tipos de texto diferentes demais. Esclareci que não há necessidade de serem de mesma tipologia, apenas que sejam compatíveis, que respeitem as diferenças e que tenham real vontade de “ler” um ao outro.
_ Real vontade de ler um ao outro. É isso! Muito obrigada! Boa noite! – concluiu me dispensando da conversa e do quarto.

Hoje, nHoHo sétimo dia, ela se espreguiçou. E, como eu disse antes, ela abriu os olhos e observou a meia luz que passava por entre as frestas da cortina, sem saber ao certo se estava amanhecendo ou se era entardecer. Franziu um pouco a testa quando começou a se lembrar da dura decisão que terá que tomar muito em breve. Mesmo assim, estava satisfeita, pois experimentou a leveza da maior liberdade que alguém pode sentir: esquecer o próprio tempo. Abriu as janelas, contemplou as cores do céu límpido e, como se ainda pudesse me ver diretamente, bradou, com um sorriso lindo em seu rosto: 

_ Bom dia, Deus! O Senhor tem escrito a minha história e, como gosta de fazer, escreveu muito certo em linhas tortas. Eu agradeço por isso, mas quero tentar algo diferente. Posso não comandar tudo o que acontece no mundo, mas quem vai escrever e contar a história da minha vida a partir de agora sou eu. Sei que é o Senhor quem manda e decide pra que lado quer que a história vá, mas posso dar palpites, não é, Deus? Vai que o Senhor aceita alguma boa sugestão!

Vamos lá... Onde foi mesmo que o Senhor parou?

Ah, sim! Eu estava deitada há dias. De cama, sem vontade. Saia só pra ir ao banheiro, tomar água, comer alguma bobagem. Voltava pra cama, deitava. Pensando e repensando na minha vida. Sabe quando você não faz nada, mas sua cabeça não para um segundo e você fica mais cansada do que se estivesse trabalhando? Pois é, eu estava assim. 

Até que hoje de manhã eu fiquei com vontade de arrumar a cama.

Me levantei, arrumei a cama, tomei um banho, passei uma maquiagem básica, coloquei uma roupa simples que eu gosto muito, olhei no espelho e sorri pra mim. Eu estava linda! Ganhei um brilho no olhar que só me lembro de ter tido durante a infância, ao chegar em casa da escola e ajudar minha mãe a terminar o almoço, enquanto a gente esperava meu pai voltar do trabalho só pra correr até ele e abraçá-lo.

Liguei para o Ivan e avisei que estava pronta para conversar.

Ele veio na hora combinada e se sentou no sofá. Me perguntou se eu tinha colocado a cabeça no lugar e o que eu tinha a dizer depois de tudo o que aconteceu entre nós. Qual a minha resposta. Eu perguntei se ele aceitava um suco. Caju. E aqui estou eu, há não sei quantos minutos, olhando para a geladeira aberta.
Bom... É agora! Pegar o suco e voltar à realidade. 

Eu me sento ao lado dele, respiro fundo e ponho pra fora o que guardei por anos e que quase me matou:
_ Bem, Ivan! Por onde começar? Eu passei minha vida inteira procurando por um tempero que tirasse o gosto insosso de tudo, que desse mais sabor às coisas e aumentasse a minha vontade de saborear o que o dia a dia nos oferece. Anos se passaram. Décadas até. Sabe o que descobri? Deus é o diretor da história da minha vida, mas a roteirista sou eu. Ele me coordena. Me orienta. Me dá bronca. Me anima. Mas o texto é meu. Agora eu consegui entender o que Ele tem tentado me explicar durante todo esse tempo: Dentro dos limites que Deus me permite, eu escrevo a minha vida como eu quiser. Ser a escritora de minha vida é o meu tempero. Eu estou sentindo sabores deliciosos no ar que eu respiro; nas cores que eu vejo (quantas cores, quantos aromas, quantos amores... inúmeros... inúmeros); nas texturas que eu sinto; a delícia dos sons. Até mesmo no prazer de um espirro, que coloca pra fora de meu corpo algo que não reconhece. 

_ Dá para notar como você está segura de si. Fico feliz com essa melhora. Isso é muito bom mesmo. Tudo vai dar certo. Eu fiquei muito preocupado. Se acontecesse algo com você eu não iria me perdoar. Afinal, eu acabei causando todo esse estresse. Me perdoa!

_ Você não foi a causa do meu estresse. Talvez tenha sido a gota d’agua (haha). Eu não guardo mágoa alguma de você e, sim, eu o perdoo. Pensei muito e sei que tudo aconteceu daquele jeito porque teve que ser assim. É como diz o povo: “Não é porque não deu certo que o relacionamento foi ruim ou perda de tempo”. Eu aprendi demais no passar dos anos. Sou eternamente grata a você. Você cuidou de mim. Me fez ter experiências que eu nem sonhava. Foi tudo o que passamos juntos, tudo o que mudou em nossas vidas enquanto estávamos juntos, que me fez ver as coisas como as vejo agora. De um jeito mais natural e simples. Foi depois de pensar muito e reviver toda essa experiência que eu pude entender que eu não sou culpada pela morte de meu pai. Eu não sou culpada por tudo o que acontece de errado. Nem sou responsável pela vida de todos. Eu mereço um momento egoísta. Eu quero ficar sozinha. No meu tempo. No meu espaço. Não digo que preciso de solidão. Não! Isso não. Jamais! Sentir o prazer de estar só e seguir minha vida sem me questionar se o outro está gostando ou não é diferente da dor da solidão. Esta não é um momento. Não é uma escolha. É uma condição. E não pode ser evitada. E sentir solidão, estando acompanhada, é aceitar uma tortura em nossa própria alma. 

_ Divina, um amor igual ao nosso não acontece todo dia. Como você bem lembrou, vivenciamos muita coisa juntos e, mesmo após todos esses anos, nosso amor é algo vivo.

_ Verdade! Nosso amor era algo vivo e, como tudo que é vivo, nasceu, cresceu, amadureceu, teve suas fases de doença e de fartura e um dia tinha que morrer. Eu precisei chegar muito perto do lado de lá pra perceber que a morte é algo natural. Não foi essa a minha vez, mas um dia será. E quando eu estiver cara a cara com Deus novamente eu quero virar pra ele e falar: “Adorei essa passagem! Muito obrigada!”.

_ Você ainda está um pouco perturbada com o incidente. Não está falando coisa com coisa. Está aí filosofando. Vamos tentar ser mais diretos, tá bom? Eu acho ótimo você enxergar as coisas de modo mais bonito, mas não mudou nada entre a gente. Está tudo como sempre foi, falta apenas você querer enxergar. Agora só me diz o que eu tenho esperado tanto para ouvir. Diz para mim que eu posso pegar as minhas coisas e voltar para casa. Diz que você sabe que seu lugar é ao meu lado. Tudo será diferente, eu garanto.

_ Com certeza será. Venha. Me dê a sua mão. Olhe bem nos meus olhos. Pode ver o brilho renovado que há neles? Olhe nos meus olhos. Anda. Não se preocupe, não vai se cegar. 


...

...

...


_ Não!


Páprica.

BC

Para acessar: 
* Páprica  (clique aqui)
* Páprica I - 1ª parte (clique aqui)
* Páprica I - 2ª parte (clique aqui)

terça-feira, 31 de julho de 2012

O rascunho

A todos aqueles que ousaram 
não matar a criança interior 


Abri a porta do carro para ir embora, com a cabeça repleta de pensamentos não lineares, onde cada problema tomava voz em um cenário mental semelhante ao que se imagina da bolsa de valores.
Valores...

Ansiedade
Frustração
Depressão
Irritação
Raiva
Agressividade

Respiro fundo e meu coração me diz:

Tudo bem!
Tudo bem!
Tudo bem!
Tudo bem!

Olho para o lado e lá estava ela. Acho que tinha sete, no máximo oito anos de idade. Pegou um pedaço de bambu e ficou arrastando no espaço entre a calçada e o muro, onde a grama ainda não havia crescido, fazendo um rastro interminável na terra.
Criança na calçada.
Brincar com o que achava por aí.
Riscar o chão com pedaço de tijolo.
terra.

Sintonia
Paz
Nostalgia
Empolgação

Me vem à mente o poeminha de Casimiro de Abreu que todo mundo aprende no colégio e que agora me parece mais triste do que no início dos anos 90 quando o li pela primeira vez:

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,

 Da minha infância querida 

Que os anos não trazem mais



Nessa hora meu coração grita:
 
TUDO BEM! TUDO BEM! TUDO BEM! TUDO BEM!


A criança andava e olhava para trás admirando o que estava fazendo, e sorriu de satisfação. Que sorriso lindo. Jogou o bambu fora, olhou para frente e continuou seu caminho, andando e sorrindo.

Aquele sorriso foi regado pelas palavras de felicitações que recebi de uma sábia escritora:

"(...) que Deus o ajude a realizar os seus sonhos, aqueles que nunca envelhecem e que estão sempre cada vez mais vivos dentro de você".

Vivos dentro de mim
Quebra de ego
Adoro cultivar plantas no quintal como uma velhinha. É o que ficou de minha avó em mim

Pra longe de tudo
Aprendi a arte da humildade e o refinamento da simplicidade. É o que ficou de meu avô em mim

Sou uma das poucas pessoas que tem o privilégio de ter mantido, ainda aos 30 anos de idade, amigos de infância. Sou padrinho do filho de quem brincava comigo de estilingue, dentre outras situações agradáveis de se pensar. Ser adulto significa ter a responsabilidade na medida apropriada para fazer o bem a outras pessoas. A criança interior deve permancer viva, já que faz parte dessa pintura


Meus sonhos, que nunca envelhecem e que estão cada dia mais vivos dentro de mim são a essência do texto, tudo o que foge a isso é rascunho. Rascunho que talvez um dia eu passe a limpo e torne-se essência também. Eu ainda estou escrevendo a história da minha vida.

E assim, mais uma vez, Deus renovou o meu espírito

 

Meu coração começou a cantarolar baixinho para eu dormir tranquilo:

Tudo
Bem


Tudo


Bem



Tudo


Bruno César


sexta-feira, 27 de julho de 2012

PÁSSAROS QUE LATEM - CAPÍTULO XV

Do alto no ninho, sentado em posição de vigilância, o cão refletia acerca das consequências dos últimos acontecimentos, enquanto os passarinhos trabalhavam na reconstrução de seu lar. Sem qualquer aviso, som ou cheiro, uma presença inadvertidamente surgiu ao seu lado.
_ Olá, Mãe Natureza! É sempre um prazer revê-la – disse o cão, mantendo-se imóvel.
_ Olá, irmão-cão! – a Mãe Natureza levantou a cabeça, encheu os pulmões, e continuou – Ah, como estou feliz por voltar aqui! Estava com saudade da energia de seu ninho.
_ A senhora é sempre bem-vinda, Mãe, mas imagino que não tenha vindo apenas para nos agraciar com sua visita.
Ela sorriu e, afagando a orelha do cão, respondeu:
_ Você está certo. É chegada a hora de, mais uma vez, distribuir as missões e eu vim pessoalmente para lhe dizer que é a vez de um pássaro assumir o ninho. Você, meu querido cão, não é mais o Pássaro-mais-velho.


...
PÁSSAROS QUE LATEM – Capítulo XV
O segredo da Mãe Natureza

O cão reuniu seus protegidos no centro do ninho e explicou sobre os novos ares que estavam por vir. A anunciação foi interrompida quando alguns se levantaram e bateram suas asas de modo agitado:
_ Não é justo! A grande tempestade, para a qual fomos preparados desde o início, finalmente passou e agora que já estamos reestruturando o ninho vem um pássaro? Tudo parece em equilíbrio, mas ainda há muito a se fazer – disse o sabiá.
_ Será muito estranho ser aprendiz de um animal que não seja um cão – disse a aracuã.
Sabendo que não há outro modo de reagir às determinações da mãe natureza a não ser aceitar, a irmã-cadela se deitou e colocou a cabeça entre as patas. A irmã-suçuarana, anteriormente o gatinho inseparável e já há algum tempo um ser grande demais para o ninho, vira de costas e diz não aceitar. Ela adora os passarinhos, mas sente a necessidade de encontrar outros de sua espécie. O ninho já havia se tornado pequeno demais para ela e agora sente que não haverá mais razão para continuar ali.
E em meio a piados, grasnados e resmungos, o cão continou:
_ Eu também não entendo, meus pequenos. Depois de todos esses ciclos, de tantas chuvas torrenciais, ser um Pássaro-mais-velho tornara-se algo quase natural, mas as decisões da Mãe Natureza estão além de nossa compreensão e cabe a nós, como seus filhos, respeitá-la sem questionar.
_ Não há um porque de tanta comoção. – disse o pequeno filhote de coruja, com sua penujem destoando de seu olhar de sapiência, a qual vem mais de sua natureza do que de experiências vividas - Você não é um pássaro e merece ser mais do que um pássaro. Mas também não é mais um canídeo. Você ainda parece um cão, mas se tornou um outro ser e um dia irá mostrar ao vale que animal você se tornou.
O cão sorri:
_ Obrigado, minha pequena corujinha. Tenho a impressão de já ter ouvido suas sábias palavras em algum lugar. Meus passarinhos, toda mudança, de certa forma é positiva. Há certas coisas que apenas um pássaro é capaz de fazer e será bom que treinem certas habilidades próprias de aves, como diferentes técnicas de voo. O novo Pássaro-mais-velho está vindo cumprir a missão que recebeu e pousará entre nós a qualquer momento. Eu quero que me prometam uma coisa: não se esqueçam do que aprenderam aqui. Respeitem aquele que será o Pássaro-mais-velho deste ninho e ele respeitará vocês. Quem sabe vocês não possam ensiná-lo alguns truques. Todos do vale sabem que vocês não são meras aves e isso não irá mudar. Olhem, ele está chegando:
_ Olá, irmão-cão. Há quantos ciclos!
_ Seja bem-vindo de volta, irmão-tiê. Meus passarinhos não poderiam estar sob melhores asas. Boa sorte em sua jornada. Cuide de meus pequeninos.

O cão olhou para trás uma última vez. As pequenas aves se juntaram ao seu redor e deram as asas, formando um círculo, que representa tudo o que foi e tudo o que um dia irá ser.



...
E assim, o velho cão deixou o ninho que tentou construir. Enquanto seguia sua jornada, cujo caminho sentia que precisava percorrer, se lembrou das palavras da Mãe Natureza, ditas após o anúncio do fim de sua incumbência, esclarecendo as motivações de sua decisão, e que agora ecoavam em sua mente:
“Olhe ao seu redor, irmão-cão. Tudo ficou claro para mim quando eu observei a nova geração de seus aprendizes. Eu dei a você uma missão: cuidar de jovens passarinhos. Veja o que aconteceu. Os Pássaros que Latem se espalharam por todo o vale. Não são mais um grupo. Eles se tornaram uma nova espécie. E cada pássaro ao sair de seu ninho e voar por conta própria se tornou capaz de criar um novo Pássaro que Late na árvore em que foi pousar. O falcão está sempre de guarda; a coruja o ajuda na instrução dos mais jovens; o bem-te-vi sempre alerta fiscalizando cada voo; o tucano quebra os alimentos mais duros para facilitar a alimentação dos pássaros que não desproveem de seu poderoso bico colorido; a cambacica não espera mais o período de floração e aprendeu a semear árvores frutíferas para se alimentar das flores que quisesse, além de ajudar na alimentação de outros que dependem de frutos, mas ainda são jovens demais, como o sanhaço. Outros, assim como foi com a harpia, ensinam cãezinhos a semear. Só há razão de ser, irmão-cão, aquilo que ainda não chegou. Não haverá fim para essa nova realidade e, portanto, não há mais nada a se fazer aqui. Estou satisfeita. Um dia, você aceitou com relutância a sua missão. Agora aceite que você a cumpriu. Aceite. Sua missão terminou.”

“Terminou...” – repete mentalmente o cão – “Terminou”. Ele adentrou na Floresta de Eucaliptos, que os passarinhos cultivaram; atravessou o Deserto de Ametista, assim como o Bosque das Árvores Secas; subiu pelo Riacho da Cascata Ascendente; descansou um pouco sob a Árvore-do-que-poderia-ter-sido e lá conversou um pouco com o protetor do lugar, o filho da água; correu, pulando e latindo, satisfeito, pelo Jardim das Margaridas e se encostou entre o Eucalipto Centenário e a Pedra do Firmamento. Ali, deitado, repensou em tudo o que passou, olhou para a lua e disse o último “muito obrigado!”. O cão respirou fundo. Sentiu-se feliz pelo cheiro agradável de musgo e terra. Colocou a cabeça entre as patas, fechou seus olhos e, finalmente, se tornou um com a natureza.

Uma brisa fria percorreu por todo o vale. Longe dali, o beija-flor, que estava treinando seus novos protegidos, parou no ar e voou para cima, rápido e em silêncio; do outro lado da floresta, a harpia-azul fitou seus cãezinhos, os quais atendendo o olhar foram para a toca e se deitaram, esperando seu retorno. Da mesma forma, os oito passarinhos que estavam aos cuidados do novo Pássaro-mais-velho, assim como dezenas de outras aves, que quando filhotes aos cuidados do cão se destacaram entre os seus e que agora lideravam pequenos grupos de animais, repassando o que aprenderam, voaram e pousaram no topo das árvores mais altas. Olharam para lua, respiraram fundo, abriram suas asas e uivaram. Uivaram por toda a noite.

Naquela noite, ouvia-se o uivo em uníssono dos Pássaros que Latem e nada mais além.



...
DIAS DEPOIS.

_ Levanta e venha comigo! – disse a Mãe Natureza. Disse e foi para o alto da montanha central.
O ser que um dia foi um cão abre os olhos, olha para o que se tornou e sorri. Ele se levanta e voa até onde está a Mãe Natureza, e de lá seguem voando juntos observando e acompanhando, de um horizonte ao outro, o desenvolvimento daqueles que serão, para sempre, os seus passarinhos.

FIM
Era uma vez um cão de rua que treinava a si mesmo, que um dia recebeu a missão de ser um Pássaro-mais-velho, que travou batalhas e sobreviveu a tempestades, que viu seus pequenos pássaros crescerem e receberem eles próprios as suas missões, que mereciam ou necessitavam, e que conseguiu da mãe natureza, por meio de uma estranha missão, aquilo que mais desejou: ser livre.


BC
P.S.: Com essa missão, eu aprendi mais do que ensinei. Obrigado por tudo, meus passarinhos! Muito obrigado!



 

segunda-feira, 18 de junho de 2012

LEMBRE-SE DE MIM


Eu olho ao meu redor e vejo uma caixa de madeira sobre a mesa
A caixa olha para mim e me conta uma série de histórias
Ela me lembra de quando a vi pela primeira vez ainda em sua casa
De quantas vezes a abri e fechei
Do dia em que quase a deixei cair
De quando a limpei
Anos de histórias contados em um olhar


Me lembro de onde estou
E olho para o outro lado
Vejo uma prateleira
Sobre a prateleira, uma cuia de chimarrão
A cuia vira para mim e me conta uma história muito bonita
Ele me conta de quando eu experimentei chimarrão e me pareceu chá de capim
De como meu avô, sem ser gaúcho, aprendeu a gostar disso
Ele falando com seu português errado, tão lindo e saudoso:
“Não é bom não. Só fica bom depois que vicêia.”
Eu gosto das historias que a cuia de chimarrão me conta


Eu já me distraí mesmo dos estudos, então me deixo levar
Apenas busco mais um contador de histórias
Acho aquele pequeno duende que ganhei de aniversário em 1999
O duende se senta sobre o suporte onde está localizado e começa a contar “causos”
Me lembra de quem me deu o presente
E de como era moda gostar de coisas esotéricas no fim dos anos noventa
Observa que quase nada no mundo mudou na tal era de aquário
Que alguns dizem que já chegou
E me diz que se impressionou no quanto eu mudei
Desde que era apenas um adolescente filhinho da mamãe metido a hippie
Agradeci ao elogio do duende e me pus a pensar


Essa “loucura” também pode acontecer com você, caro colega que está lendo esse texto?
Se acontecer, por favor, me conte
Olhe agora para algum objeto que está ao seu lado
Na mesa
Prateleira
Ou em cima de sua cama
Escolha algum presente ou lembrancinha qualquer que guardou e que está ao seu redor
Agora mesmo, próximo ao computador
Tem algo aí perto
Eu sei
Olhe para esse objeto e pergunte:
“Qual a sua historia?”
Quem lhe deu? Quando? Se você comprou, em qual circunstância?
Não tenha vergonha de surtar uma vez na vida
Acredito que um surto tão lindo é uma experiência que merece ser vivida e compartilhada


Desejo que todos possam ouvir histórias de pequenos objetos
Lembranças de entes queridos, que muitas vezes não existem mais, fisicamente, em nossas vidas
Tem quem não goste de histórias, mas como disse um sábio:
“Não é bom não. Só fica bom depois que vicêia.”
O universo precisa se renovar e por isso tudo muda tão rápido
O para sempre é relativo e de um modo ou de outro vai acabar
E quando você se for?
Será apenas uma memória agradável que irá gradualmente se apagar?
Seja lembrado!
Deixe um pouco de você
Seus valores
Seu carinho
Já pensou nisso?
Um objeto
Alguma simples lembrancinha
Guarda para sempre um pouco de você
Quando você se for, esse pequeno objeto irá contar a sua história
Você fica para sempre no presente que você dá de coração
Afinal, é tudo o que irá restar de você um dia

Uma doce lembrança 


BC