sexta-feira, 8 de março de 2013

E, DE REPENTE, É SEXTA-FEIRA



Você acorda na manhã de segunda-feira já planejando chegar cedo ao trabalho para o serviço da semana adiantar. Problemas evitar. Do estresse se livrar.

A sua música passou.
A ração sobrou.
A cerveja gelou.
O telefone não tocou.
E, de repente, é sexta-feira.


É segunda-feira e você abre os olhos pensando em começar a praticar exercícios. Talvez uma leve caminhada. Dessa semana não passa. Diminuir a barriga. Começar a dieta. Andar de bicicleta.

A gata pariu.
A velha morreu.
O helicóptero caiu.
O livro que não leu.
E, de repente, é sexta-feira.


Seu despertador toca e é manhã de segunda-feira. Você acorda disposto. Essa semana será diferente. Você vai estudar. Para a entrevista de emprego se preparar.

A bolha estourou.
O sol nasceu.
A boca que se calou.
O carro que você bateu.
E, de repente, é sexta-feira.


Você nem dormiu direito pensando em tudo o que deixou para a última hora. É segunda-feira outra vez e você quer se organizar. Do lixo interno se livrar. A bagunça aí dentro arrumar.

A fumaça subiu.
O incenso acabou.
A dor de cabeça surgiu.
A música do Fantástico soou.
E, de repente, é sexta-feira.


Você sabe que é segunda-feira e está cansado de perceber que a vida passa e você não vê. Sem pressa você se levanta. Não quer nem pensar no que vai fazer. Abre a geladeira e a única preocupação é decidir o que comer. Saciar a lombriga. Dane-se a barriga.

O galo cantou. O câncer sumiu. A menstruação desceu. O beija-flor voltou. A Terra girou. O garoto sorriu. E, de repente, é bom dia. Olha o sol aí de novo.

É terça-feira, afinal!
A vida vem te buscar.
E você vai com ela de mãos dadas.
Um passo após o outro.
          Um dia de cada vez.
 



BC

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

EU NUNCA PULEI CARNAVAL



·               * Transcrição daquela conversa boa na varanda com um velhinho querido:

“Eu nunca pulei carnaval.
Mas eu também não falo mal não.  Deixa os menino pular.
Eles precisa disso.  Ninguém pode ficar pensando nos problema o tempo todo.  Cansa, sabe?
Isso é bom igual pegar uma música e botar pra tocar a tarde toda. A gente vai lá pra quando era jovem e fica lá um tempão.
Claro que vem os perigo de quem não sabe se divertir e também os que bota fantasia e não sabe mais quem era antes da festa e fica assim com as pintura por muitos anos.
O nome é bem isso, não é? Alegoria.
Eu não critico não. É o tal do mal necessário.
Que se fantasiem com sorrisos.
E queira Deus que se confundam fantasia e realidade.
Alegoria no coração das pessoas para que consigam sorrir.”

(Seu Eupídio)

domingo, 30 de dezembro de 2012

RITUAL DE ANO NOVO


                Você está aí nessa cadeira há muito e muito tempo pensando em tudo o que passou.

 Você se levanta.

Caminha.

Acelera o passo. Mais rápido. Mais! Você abre os braços e sorri. Que bom!

Você já está correndo. Corre e corre até sentir seu coração bater mais forte. Você chora. 

Ainda correndo, seus pulmões começam a arder. Você grita.

Corre e já não sente mais nada. Corre ainda mais e sente que está voando. Você gargalha. 

Continua correndo e gargalhando de braços abertos e não há mais ninguém além de você e o mundo lá em baixo. 

Você se ajoelha e então se deita, recuperando o fôlego. 

Olha as estrelas.

Que liberdade maravilhosa!

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

At.: Aos meus queridos mortos



Amados,

Hoje é dia de finados. Alguns de vocês já celebraram esse dia, mas é o primeiro de dois de meus entes queridos que estão aí também.

Interessante o nome finados. Dia de terminados? Dia de concluídos? Se nós acreditarmos que existe algo além do final, o nome pode ser outro? Não gosto de fim. Não gosto da ideia de vocês serem finados. Talvez aceite a visão romântica de missão concluída; que o caminho nesse plano foi finado. Mas vocês não.

Ainda não sei lidar com o conceito de morte. Não a aceito. Nego-a com veemência. Imagino vocês comigo a ponto de sentir suas presenças e até mesmo suas vozes. Não os ouço, nem os vejo. Não estou louco a esse ponto, nem sou médium. Não quero ser. Eu os sinto. Não, eu não me tornei espírita. Acredito que isso se dá mais pela minha relutância em aceitar rótulos do que por falta de crença.

Dizem que preciso aceitar que vocês se foram para que eu possa seguir em frente. Aceito que seus corpos foram gastos e não serviam mais para vocês, e que vocês continuam a vida de um jeito que não compreendo muito bem.

Como sabem, algumas coisas não mudaram. Ainda entro em casa e olho para um porta-retratos com uma fotografia tirada há quinze anos e digo: “Bença, vó!”. Juro que me sinto abençoado. Quando estou em um momento de dúvida, me sento na mesma cadeira em que eu passei várias manhãs de sábado ouvindo histórias de meu avô, os “causos” repetidos que tanto gostava de ouvir, e pergunto: “E então, vô? O que eu faço agora?”, e em poucos minutos me sinto seguro e decidido com o conselho que sinto receber. Como eu disse, não os ouço, mas os sinto. São ideias que surgem do nada. Segurança e firmeza vindas de não sei onde.

Todos aqui em casa estão bem. Estou ajudando na reforma. Vocês vão ver como nossa casinha vai ficar bonita. Eu contei que comprei um lote? É grande o bastante para ter um quintal e isso é o mais importante pra mim, como devem se lembrar. Ah, eu saí do cartório onde eu trabalhava. Sinto falta daquela época, do ambiente, dos colegas, mas fui muito bem recebido no outro cartório onde estou agora. É bem agradável lá. Estranhei um pouco no começo, mas estou gostando. Os novos colegas são bem legais também.

No mais, a gente vai tocando a vida do jeito que sabe e aguenta.

Sinto falta da presença física de vocês. Das peles, dos pelos, dos cheiros, das vozes, das obrigações, do horário de dar remédio, de preparar a comida, do dia certo de fazer compras, da necessidade de atenção. Sinto falta da falta de liberdade, por ter sempre que deixar de ir para algum lugar que eu queria, para fazer algo para agradá-los. Mas sinto a presença de vocês e isso ameniza o vazio que me corroi por dentro e faz eu me sentir quase feliz.

Eu queria aproveitar esta carta pra agradecer. Vocês, juntos, ajudaram a moldar meu caráter, meus valores, minha postura diante dos problemas e dos prazeres da vida. Me ensinaram a valorizar a beleza da simplicidade. Sabiam que eu mantive velhos hábitos e manias de vocês? Estou aprendendo a cultivar uma horta bem ali no quintal. Não está muito produtiva ainda não, mas estou me esforçando. Estou aprendendo a afinar o violão e me arrisquei até a preparar um doce para surpreender com uma sobremesa típica da vozinha.

Dizem que, se os chamamos com frequência, vocês não descansam aí onde estão morando agora. Que tem seus afazeres e que eu não os deixo sossegar. Deixarei-os em paz, no sentido de não mais agir como menino mimado pedindo atenção o tempo todo, mas não os quero longe de mim. Já que nos amamos e vocês estão comigo quando preciso, desde já convido para que venham sempre prosear.

Bem, eu contei como estou, agora é a vez de vocês. Venham, sentem-se ao meu lado e me contem como estão. Hoje é dia de vocês. Hoje é dia de ouvir “causos”. Hoje é dia de confraternizar com a família completa. Com todos os amados, estejam em um corpo carnal ou não.

Minha mãe mandou um abraço bem apertado a todos vocês e um cafuné na Gabi e na Laika.

Aguardo a próxima visita. Até lá! 

Fiquem com Deus.



Com amor,

Becê