Páprica (1ª parte)
domingo, 13 de maio de 2012
Páprica I - Ela não sabia dizer não (2ª parte)
Páprica (1ª parte)
domingo, 1 de abril de 2012
Páprica I - Ela não sabia dizer não (1ª parte)
domingo, 18 de março de 2012
EU QUERO LER VOCÊ
Definir o tipo de texto que você é não é algo que se faz superficialmente, julgando o modo que se leva a vida ou sua profissão. Se seguirmos por esse caminho, minha vida não é um texto, é um filme Sessão da Tarde dos anos 80. O maior clichê piegas. Já quanto à minha tipologia textual, não estou tão certo agora. Com base nesse pensamento, analisarei minha tipologia por exclusão. Não me identifico com o poema, porque vejo poema como a poesia por si mesma. Existe poesia em todas as coisas. Existe poesia em uma árvore dançando com o vento; nas asas de uma mosca que voa pela cozinha; no caminho brilhante da gosma deixada por uma lesma; no canto dos pássaros e em patos no lago. Há poesia na novela, no conto, na crônica, no romance. O poema é a poesia traduzida e codificada. Definitivamente eu não sou um poema. Complicado me identificar. Todos mudamos com as experiências diárias. Eu sei que eu mudei. Creio que é por isso que é mais fácil definirmos quem éramos, do que quem somos agora. Então, vamos lá! Eu já fui um conto, uma fábula, um texto meramente informativo, uma novela onde a cada mudança de tipologia textual, eu continuava alternando entre os personagens que fui um dia, os quais muitas vezes entraram em conflito entre si e terminei como um romance, com um núcleo principal bem definido e outras tramas menores que se desenvolviam simultaneamente. Como as tramas tiveram uma conclusão satisfatória, o texto que eu sou mudou. Os vários personagens, com suas tipologias textuais específicas, foram eliminando-se um a um, até que sobrasse o que foi batizado de “O pequeno”, e assim eu me tornei uma crônica. É isso! Eu sou uma crônica!
Agora você já tem a chave para ler o texto que eu sou. Apesar da impressão estranha semelhante a me despir e permitir que veja minha nudez, digo a você que é uma sensação satisfatória. Facilitar o caminho para que eu seja lido em minha essência é algo mais prazeroso do que imaginei a princípio. E agora? O que acha? Está tudo bem? Confortável? Sim? Que bom, pois é a sua vez! Olhe ao seu redor. Selecione algo, alguém ou alguma coisa que aconteceu hoje. Pense no que não sai de sua cabeça a ponto de mudar seu comportamento. Concentre-se nisso. O que essa coisa lhe faz pensar? Leia a coisa. Extraia o texto e analise o modo como você se sente. Assim você poderá se conhecer melhor. É hora de se despir. Mostre-me a sua tipologia textual! Eu quero ler você!
terça-feira, 6 de março de 2012
TEM UMA GALINHA EM MEU QUINTAL
Hoje eu acordei com o cacarejar de uma galinha. Abri a janela para o ritual matinal de desejar bom dia ao dia e lá estava ela. Uma galinha em meu quintal. Olhei para ela e ela olhou para mim. Continuei olhando meio que sem acreditar e ela me ignorou e começou a bicar o chão. Algum vizinho era o dono do bicho, o que significava que ela não podia ficar ali. O que queria dizer que eu tinha que encontrar uma solução. Pensei nas cenas possíveis para resolver o caso. Todas tendiam a eu procurando nas casas vizinhas pelo dono do animal e nós dois cercando uma galinha dando olés e eu imaginando que o cacarejar era ela gargalhando da minha cara. Não. Sempre há um modo mais fácil. Abri o portão, deixei aberto e esperei a danada sair. Fechei o portão e pronto, bateu um peso na consciência.
A galinha tinha dono e poderia fazer falta na refeição de uma família. Logo calculei que fiz algo bom e salvei sua vida, e ri pensando em quem vai encontrá-la e se sentir esperto correndo atrás dela no meio da rua. E percebi como me distraio com uma facilidade incrível e perco meu tempo analisando baboseiras.
A dispersão de pensamentos vem com a falta de objetivos. Eu vivia em função de determinada situação que não existe mais. Desde então eu fiquei sem função. Precisava de um novo foco. O episódio da galinha me fez perceber como vivo em uma realidade extremamente simples e como é isso que eu quero para o resto da minha vida. Simplicidade é a minha meta. Essa galinha me fez um bem maior do que ela jamais irá imaginar.
O recomeço.
Bruno
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
O PEQUENO GIRASSOL

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
O VELHO E O PEQUENO NO RIO SERENO
(em memória de meu avô e amigo, Seu Tião Faustino)
(O RIO SERENO)
(O VELHO)
(O PEQUENO)
O velho estava sentado na margem do rio há três semanas.
Olhar fixo na correnteza.
O movimento hipnótico o atraia.
Resolveu ser cauteloso e colocou apenas os pés na água.
Temperatura agradável.
A lama no fundo massageando os pés.
A leveza que há tempos procurava.
O pequeno chamava.
Ao longe, ouvia seu nome e então voltava.
Voltava e se sentava.
Sentava-se olhando a água.
Vezes antes o velho olhou para o rio.
Olhou e voltou para a cabana.
Em certa ocasião, ele resolveu que precisava mergulhar.
Ouviu dizer que lá é permitido ver amigos que estão nas águas,
cujas vozes insistiam em não se calar à noite.
O pequeno pediu que ficasse em terra.
Pelo pequeno, o velho resolveu esperar o rio o chamar.
Aguentou a dor pelo pequeno.
Agora as águas do rio estavam mais belas.
O velho se senta na beira do rio
A fumaça saindo pela chaminé da casinha de madeira.
O almoço está pronto.
O pequeno se vira para o rio o mais próximo que pode e sussurra,
avisando que é hora de se sentar à mesa.
Ele quer voltar para casa.
Olha para o rio.
Ele se senta e olha o rio.
Na hora do jantar, o pequeno sussurra um juramento:
“Em terra não haverá solidão.
Em terra se reunirão os irmãos.
Sono e despertar,
com sentimento de união!”
“Ora, pequeno, é o que tanto rogo!
Não se preocupe, estou voltando!
Prepare o fogo logo.
Pois a fome está me...
Onde está você, pequeno?”
“Aqui!”
“Para onde foram as cores?
Para onde foi ar, que não vem a mim?
De
onde
vieram
as dores?
Necessito beber das águas do rio!”
“O rio leva a um lugar incerto e ao fim.”
O rio leva para um lugar certo e sem fim.
O ritmo intermitente do som das águas,
insistem em chamar a atenção para a história de uma vida.
A vida e o rio.
Ele volta e coloca os pés no rio.
“Para onde foram as dores?”
A dor pertence à terra. Não há dor em nosso rio.
O sol. O céu. O ar tão fino e puro. Os insetos.
A vegetação ao redor. Tudo tão colorido.
“De onde vieram as cores?”
As cores vieram do rio.
Novamente ele se senta.
O velho se senta e olha o rio.
Ao fim do entardecer de mais um dia, o pequeno,
novamente aos sussurros,
lembra o velho de sua importante função como carregador do lampião,
iluminando o caminho para os que seguiam atrás.
“Tu és o novo carregador do lampião, pequeno.
Iluminando a passagem de quem vem à frente.”
“Mas e os perigos do caminho?
E o meu refúgio?”
“Valores que criamos.
O único refúgio é o rio.”
“O único refúgio é o rio...”
O pequeno percebeu que era preciso libertá-lo.
Ele quer o rio, mas se preocupa com o pequeno.
Ele tenta voltar e novamente aguentar a dor.
“Não tenho mais medo!
Você tem?”
“Sim, eu tenho medo!
Todavia, não se preocupe mais.
Você cumpriu muito bem a sua missão.
Pelo senhor eu tenho forças para segurar o lampião!”
É hora de aceitar o rio.
Mesmo àquela distância era possível entender.
“Lá está o sentido das coisas.”
O pequeno respirou fundo e sussurrou:
“Talvez seja hora de aceitar o rio.”
O velho olhou para trás uma última vez:
“Hora de aceitar o rio.”
No rio¸ amigos e família o saúdam.
Tudo o que o velho desejou.
“Estou com aqueles que me amam.”
A fartura de benevolência que tanto esperou.
“Com licença...”
“Venha! Entre!
Seja bem-vindo às minhas águas.”
Cadeira vazia.
“Estou com você, pequeno!
E estarei com você no rio sereno.”
O pequeno ouve o sussurro e sorri:
“Estarei com o senhor no rio sereno.”
BC Maoli
sábado, 14 de janeiro de 2012
PRA LONGE DE TUDO
Abro os olhos e eles já estão ao meu lado. Eu os vejo, mas não os enxergo. Não assimilo seus rostos. Não guardo informações desnecessárias. Eles falam comigo como previsto. Pelos olhares lânguidos, é a tal fala social que tanto quis evitar. Posso ouvir os sons que saem de suas bocas, mas não consigo entender o que dizem. Longe de tudo, onde estou, não sou capaz de decodificar as palavras. Pela obrigação social, eu procuro olhar em seus olhos. Olhar nos olhos é o básico para que o interlocutor se sinta importante. Pela obrigação social, eu respondo algo genérico, com um tom especial baseado no que imagino que estejam falando. Acho que balanço a cabeça e digo algo como “é verdade... desse jeito...”. Satisfeitos, um deles coloca a mão em meu ombro e se levanta¸ levando quem o acompanhava consigo e, graças a Deus, estou sozinho novamente.
Longe de tudo, eu o procuro. “Achei!”. Focalizo e me aproximo de onde ele está. Toco em sua cabeça e trago-o aqui onde não há mais ninguém além de nós dois. Ninguém para se excitar ouvindo-me me despedir. Até mesmo um tolo imaturo e egoísta, como eu, sabe a hora de deixar ir. “Obrigado!”. A gratidão mais pura. Saio de meu refúgio mental para devolvê-lo ao mundo. A jornada individual se torna ainda mais solitária. O vazio que carrego em segredo se expande. Fecho os olhos e me jogo novamente no vórtice.
É tão tranqüilo... Talvez um dia eu possa ficar aqui para sempre para que minha alma cansada também possa, finalmente, encontrar a paz.
Bruno
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
SUA MÃE VAI MORRER (Interlúdio)
- Uma crônica baseada, infelizmente, em fatos reais.
sábado, 24 de dezembro de 2011
A MINHA GORDURA LOCALIZADA
*"Reprodução" na íntegra de uma resposta a duas simples perguntas:
“O que mais me aflige, BC? Como? Qual pensamento vem à minha mente assim que ouço essa pergunta? A resposta é: a minha gordura localizada! Qual resolução de ano novo não cumprida me irrita constantemente? A resposta para sua pergunta é: essa bendita gordura localizada!
E o tanto de promessa que fiz? No fim do ano passado prometi a mim mesma que iria me preparar pra uma promoção ou um emprego melhor. Prometi que reformaria minha casa e que faria uma horta no quintal e um lindo jardim. Prometi que cuidaria mais pra ter um casamento feliz. Prometi que faria aquela dieta milagrosa especial e até o natal desse ano eu iria ao clube e desfilaria de biquíni me sentindo o máximo por ter perdido minha gordura localizada.
Um ano depois, é frustrante pensar que, por mais que eu tenha me preparado, não vejo perspectivas no trabalho; que por mais que eu e meu marido tenhamos tentado juntar dinheiro, minha casa está ainda pior; que por mais que eu tenha me dedicado, o meu casamento está assim... Acho que é desse tipo de pensamento que vem a famosa depressão de fim de ano. Dizem que muitos suicídios acontecem na época do natal, sabia? É triste! E onde fica a coitada da minha gordura perto de tudo isso? Não é porque minha gordura ainda está aqui que ela me aflige, mas porque ela me lembra de uma coisa muito importante: Eu!
Me dediquei tanto a atingir minhas “metas essenciais” e o escambau que não me lembrei do prazer de fazer uma caminhada olhando a natureza. Minha vida é tão corrida que não posso dedicar um tempinho, talvez menos de uma hora uns três dias da semana, pra mim? Não posso esquecer dos problemas e me permitir o prazer de ser fútil nem em um domingo e relaxar em um fim de semana do mês me bronzeando? Posso sim! Oras, mesmo com minha querida gordura localizada eu sou gostosa! Será que o espírito natalino está me fazendo ser boazinha comigo mesma? Pensa, como ter um feliz natal sem me esbaldar na ceia? Se estaremos comemorando o nascimento de Cristo lá em casa, eu me dou permissão para comer até bolo de aniversário! E um próspero ano novo passando o reveillon regulando comida? Eu preciso alimentar minha querida Úlcy (a úlcera mais bem tratada do mundo). Como alguém de dieta pode desejar “Boas Festas”? Se o Papai Noel pode ser gordinho, porque eu não posso ter uma gordurinha leve na cintura?
Toda vez que olho pra esse pneuzão saindo pela calça jeans eu me irrito. Não pela gordurinha. Isso é só um detalhe. Eu me irrito porque com minhas resoluções de ano novo eu criei barreiras, verdadeiras condições para ser feliz, e, sempre que vejo minha gordura localizada, me lembro do tempo que perdi enquanto podia ter vivido. Me lembro de negar convites para viagens com nossos amigos, por vergonha do meu corpo. Festas e churrascos... Me lembro de ter dormido frustrada porque a balança não acusa nenhuma evolução, mesmo com toda aquela salada. Quando olho pra minha gordura me lembro de ficar tensa quando ia tirar a roupa para meu marido em vez de ter orgulho do meu corpo, pois eu sei que sou gostosa! Me lembro de ir trabalhar chateada e sem ânimo por causa dessa luta inalcançável, o que, obviamente, fez diminuir meu rendimento. Como quero ser promovida se já chego ao trabalho estressada?
Me lembro de outros requisitos a serem alcançados para que eu pudesse ser feliz que coloquei na minha vida, como uma casa linda e o casamento perfeito. Minha casa é linda do jeito que está! É um lar! Precisa sim de reforma, mas é aconchegante e repleta de amor. E quanto ao casamento? Agora entendo que meu marido não tem que se transformar em outra pessoa para se tornar companheiro. Precisamos aceitar nossos defeitos, perdoar nossos erros e entender que somos, acima de tudo, amigos e parceiros que se uniram para, juntos, seguir o caminho da vida superando dificuldades. E se não der certo mesmo com toda essa compreensão, eu troco de marido, oras! Eu sou gostosa!
Vou viver mais em vez de fazer planos. Ser feliz e todas as outras conquistas será conseqüência!
Tenhamos todos um NATAL MUUUITO FELIZ e um ANO NOVO CHEIO DE SAÚDE E PROSPERIDADE!!!
Minha lista de resoluções para o ano novo: Vou desligar o celular e fazer caminhada alguns dias na semana. E minha gordura localizada irá comigo ao clube sempre que ela quiser, graças a Deus!”
· A autora suplicou para não ser identificada, pois representa todas as mulheres, e dependendo da interpretação representa a todos nós
Bruno Machado
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
A ESTRADA NOSTÁLGICA
domingo, 27 de novembro de 2011
A VARA AMADA - I
“Dentro das Regras, nossas próprias regras.”
(Maoli)
Tenho falado pouco do trabalho em cartório, apesar de ser o título deste espaço de publicação de textos. Falei do cartório em “Pássaros que latem” (o cão foi baseado neste que vos fala, os pássaros que aprenderam a latir foram baseados na primeira geração de minha equipe e a mãe-natureza é Deus, com seus planos ordenados em situações, apenas aparentemente, caóticas). Falei do cartório também em “Tatuagens e outras marcas que ficam” (a última tatuagem foi um problema de trabalho superado de modo tão natural que chega a ser estranho), e no fim de “Lembranças do futuro do pretérito” (foi um texto sobre um futuro próximo ao calcular o tal problema no cartório que gerou a última tatuagem). Mas além de ter falado pouco, falei por meio de analogias que só são passíveis de entendimento por mim e por quem fez parte das histórias em meu ambiente de trabalho. Agora pretendo dedicar um espaço próprio para falar com certa freqüência sobre a escrivania judicial (o cartório de uma das Varas de Assistência de Goiânia) à qual tenho me dedicado de corpo e alma, literalmente. Mas porque essa dedicação?
Descobri que escrever me faz bem quando eu ainda estudava em uma escolinha chamada Gente Importante. Deveria ser obrigatório escolas infantis terem nomes idiotas. Para uma criança, isso é muito legal! “Gente Importante”. Com a chegada da fase adulta, os textos de minha autoria foram diminuindo na mesma proporção que o brilho em meus olhos. Parecia uma perda de tempo, já que eu poderia estar estudando, ou fazendo algo que “gente importante” faz. Publicar livros depende da elaboração de um trabalho excelente e contatos. Nunca considerei algum texto meu excelente, e nunca tive contatos, então, criei este espaço para publicação na internet, o qual ficou parado por um ano. Aos poucos, as experiências passadas em uma certa escrivania judicial do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, foram renovando minha necessidade de alinhar pensamentos e sentir paz interior. Assim renasceu a necessidade de expressar o que penso e sinto através de palavras escritas. O que quero dizer é que o trabalho no cartório me inspira e foram as experiências vividas nesse ambiente de sentimentos e sensações diversas que me devolveram a vontade de escrever. O título correto deste blog seria: “é porque trabalho em cartório que sou escritor”.
Todos já ouviram a frase açucarada: “Trabalhe com o que você gosta de fazer e nunca terá que trabalhar”. Essa é uma das maiores baboseiras passadas de boca-a-boca através das gerações. Você pode fazer o que ama, porém se tiver responsabilidades, metas, prazos e qualquer forma de pressão, é trabalho. Por isso jogar bola profissionalmente é trabalho, o qual dizem, cansativo e desgastante (com remuneração absurda, mas é). Talvez o pensamento correto seja mais algo como “trabalhe com o que você gosta de fazer e irá se sentir satisfeito mesmo com todo o cansaço”. Trabalhar em uma escrivania de assistência judiciária é algo muito cansativo, porém, extremamente prazeroso, vez que amo o que eu faço.
Não, não... Meu amor é pelo Direito. Pelo cartório, tenho paixão.
Como todo objeto de paixão, o cartório me deixa angustiado e empolgado; ameniza o tédio que sinto constantemente; me força a amadurecer como pessoa ; me faz chorar; me faz sorrir; me faz perder o sono. O trabalho no fórum me faz dormir o sono dos anjos, como vovó já dizia.
Pensando bem, talvez minha relação com o cartório não seja apenas paixão. Creio que seja amor. Só o amor justifica tudo o que passamos juntos.
E o que mais gosto do trabalho no cartório: toda semana tem uma história para contar. E eu vou contar!
Bruno da 6ª
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
SUA MÃE VAI MORRER
ENSAIO SOBRE O PESSIMISMO-POSITIVO
Muito se fala sobre a busca da felicidade e o pensamento positivo como o segredo do universo. O que não contam é que essa busca resulta sempre em frustração, vez que expectativas exageradas levam a decepções e mágoas. Entendemos ser a chamada felicidade nada mais do que os raros momentos que Deus nos permite entre uma desgraça e outra em nossas vidas. A busca que todos têm como necessidade vital não deve ser por uma felicidade abstrata. Deve ser, sim, a busca por uma sensação de paz através de uma vida harmoniosa e tranqüila, eliminando a tristeza após a difícil tarefa de enxergar o mundo sem o colorido da fantasia. Sem esse trabalho de nova visão das coisas, torna-se comum confundir felicidade com empolgação. A falsa felicidade nessas situações é passageira e dependente de situações de conquista. Verdadeiramente feliz é aquele que sabe dos males e mazelas do mundo e ainda consegue se levantar para lutar. Defendemos aqui a tese do saudável pessimismo, chamado doravante de pessimismo-positivo.
Viver o pessimismo-positivo nada mais é que abrir mão da ilusão de vida segura e distante do caos que nos é imposta pela sociedade (devido a necessidade do ser humano de tornar a arte de lidar com as situações do cotidiano um pouco mais simples), aceitando, dessa forma, o lado menos prepotente das coisas. Significa ver o mundo de um modo mais realista, mais cru e, por vezes, mais cruel. O que não deve ser confundido com tristeza. Trata-se apenas de limpar o terreno (mente e alma) para que sentimentos puros, e até mesmo a tal felicidade, possam surgir naturalmente.
Abraça a idéia do pessimismo-positivo quem compreende que ter a auto-estima destruída em alguma fase da vida, uma pitada de depressão relativamente superada e dúvidas sobre seu valor e seu lugar no mundo são fatores essenciais para a construção da personalidade. Entender isso é mais difícil para os mais novos, pois as atuais regras de convivência e necessidade de projeção de suas vidas em redes sociais, aparentemente resultaram em uma verdadeira imbecialização de toda uma geração. Pessoas nascidas nos anos noventa (principalmente e, por isso, aqui usadas como exemplo) formam uma geração perdida, salvo, é claro, raríssimas exceções. Exceções essas que experimentaram ter sua auto-estima destruída em alguma fase da vida, uma pitada de depressão relativamente superada e dúvidas sobre seu valor e lugar no mundo, o que nos parece ser a verdadeira fórmula do despertar.
É de conhecimento comum que pessoas que sofreram alguma experiência dolorosa e superaram a dor, conseguindo seguir em frente, enxergam o mundo com olhar mais maduro (claro que algumas, mesmo sofrendo, continuam presas à ilusão). Não é necessário sofrer se você conseguir ter empatia o suficiente para sentir a dor de outra pessoa e assim se desenvolver a ponto de despertar para o mundo cru. Após o despertar, começa a busca pela paz, e consequentemente, o encontro da felicidade.
Para esclarecer melhor a idéia de empatia de dor, analisemos sua vida de trás para frente, começando pelo fim e concluindo no tempo presente. Que tal essa sugestão de seqüência decrescente provável de fases de sua vida? Você vai morrer! Sim, você vai... Sinto muito! Agora como será sua morte? Será que vai doer? A dor lacerante no peito. Talvez seja como um desmaio: Sentirá falta de forças... Apenas vontade de dormir em horário que não o de costume. A cabeça batendo na pia do banheiro. Algo menos agradável de ser lembrado no paraíso: a cabeça no vaso sanitário enquanto se limpava. Um mal súbito pós-defecação parece até um gracejo divino, mas vai que acontece. O objetivo do ensaio é auxiliar a traçar planos e ajudar a moldar a postura com a qual você irá seguir seu caminho. Deixo claro: ESTE TEXTO NÃO TEM O OBJETIVO DE INDUZIR AO SUICÍDIO. Deixe para morrer de causas naturais. Vai que com o tempo você percebe que não é completamente inútil. Claro que o mais provável é que você seja, afinal, sua grande preocupação é conseguir um emprego legal para comprar coisas (muitas) das quais não necessita, pagar contas apenas para sobreviver com um mínimo de dignidade e comer. Comer, dormir, talvez se exibir e defecar são as razões da sua vida.
Como fica combinado que ninguém aqui vai planejar a própria morte, vamos seguir para outra constatação: você verá sua mãe morta! Meus pêsames. Talvez você morra primeiro, ou morram juntos em um acidente de carro, mas a primeira alternativa é a mais provável. Quando ela falecer, lembranças de anos passados irão se aflorar e fazer com que perceba que brigar por ela não ter feito a comida que pediu, ou por algum problema familiar patético, ou porque não deixou você dormir fora só porque ela sabia que você ia passar a noite transando com algum idiota, acaba perdendo um pouco o sentido, não acha? É muito bonito e deprimente (vez que algo estúpido), ver familiares se aproximar na hora da dor, pedir perdão e se lamentar por não terem aproveitado mais. A dor virá. Dor é a regra. Não serei piegas e falarei algo como “abrace papai e mamãe e diga eu amo vocês enquanto pode”. Só não queira se sentir leve falando coisas bonitas e juras de amor além da vida para sua mãe quando ela já estiver no leito de um hospital, sem consciência, com uma sonda de alimentos atravessando sua barriga. Torne-se um bom filho agora, ou seja mau até o fim. Você vai sofrer por ver sua mãe sentir dor e não poderá fazer mais nada do que já está fazendo para ajudá-la. Antes disso, você vai ter alguém. Você vai perder alguém... Se aceitar o desafio, você mesmo pode preencher as reticências.
Essa idéia aparentemente estranha tem se mostrado um verdadeiro mapa para quem está se sentindo perdido. A bússola se desenvolverá dentro de você com o tempo, não se preocupe.
Maoli
(SUA MÃE VAI MORRER - Capítulo II - O sorriso da alma)
Previsão de publicação: 01.12.2011
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
A VERDADEIRA MAGIA
Como eu disse em mandruvás alados, na busca em algo para crer, estudei um pouco acerca de espiritismo, budismo, hinduismo, protestantismo, Santo Daime e... Wicca, o estudo do que é chamado vulgarmente de bruxaria, e posso contar algo que descobri nesse percurso: Não é por você, nem para você, que o mundo gira. Quando você morrer, algumas pessoas sentirão sua falta, mas logo se adaptarão e elas, assim como o resto do mundo, irão continuar suas vidas, mesmo sem os seus dramas particulares e suas convicções e ideologias pessoais "tão importantes". Ter plena consciência disso é a primeira metade da base para a preparação mental necessária para que se consiga conjurar qualquer feitiço e manipular uma pequena magia. A outra metade restante é querer de verdade, sem qualquer razão para peso na consciência. Desejar com pureza, sabendo que ninguém será prejudicado no caminho. Nesse momento relembro aqui a célebre frase de conhecimento popular: “Quando você deseja realmente alguma coisa, todo o universo conspira a seu favor”. Poucas pessoas sabem, mas essa crença, que pode ser compreendida como qualquer tipo de fé, é a base para a magia pura.
Vamos agora analisar o essencial de qualquer ensinamento de magia popular: preparação do ambiente, vestuário, material para a elaboração do feitiço e o principal, as falas a serem conjuradas.
Toda receita que encontrar que venha a ensinar essas coisas sem sentido, leia por curiosidade (qualquer leitura pode ser interessante) e depois ignore, pois não passa de baboseira.
A chamada Magia é simplesmente se integrar à natureza em sua essência, respeitando-a ao aceitar que não somos nada perante essa força, entender seu ritmo e tentar se adequar para obter o equilíbrio desejado. Tudo se trata apenas disso: a busca pelo equilíbrio.
A frase tradicional de halloween dita pelas crianças em frente às casas, “doces ou travessuras”, fantasiadas de demônios, representa na tradição Celta o que pode ser compreendido como forças da natureza dizendo: “me agrade que eu te agrado, ou me desagrade e sua vida se tornará uma bagunça”.
A verdadeira receita da magia pura é: Agrade a vida!
Se você quer saúde, deseje que alguém doente se cure.
Se quer amor, deseje que alguém triste fique feliz.
Se quer dinheiro, deseje que alguém consiga comprar algo de que necessite.
Se quer respeito, deseje que alguém seja respeitado.
E, quando possível, não apenas mentalize, mas faça algo!
Pode parecer piegas, mas realmente funciona. Unindo a primeira metade da base para a preparação mental, destruindo sua idéia superficial de ego e limpando a mente de ideologias e angústias banais, com a segunda metade, o desejo concentrado, você observará estranhas coincidências acontecendo em prol de seu objetivo. Desapego e foco. É o mesmo princípio bíblico que diz: Dá e receberás.
Desejar algo a outra pessoa e se mover em busca da concretização do desejo, faz com que desejem e façam de volta.
Essa é a verdadeira magia, ou fé, ou como quer que queira chamar o que pode de fato mudar a vida de alguém e consequentemente a sua.


quarta-feira, 19 de outubro de 2011
VIDAS EM GOIÂNIA LESTE - Histórias dentro da História (01)
PRELÚDIO (do que um dia será um livro – publicação quinzenal)
Era manhã de domingo quando ao voltar para casa me deparei com Dona Otília, antiga moradora do fim da rua, parada, olhando para uma casa recém construída em um dos últimos lotes baldios do bairro, aparentando ver muito mais do que uma residência. Ao passar por ela, a velha senhora me encarou por milênios de segundos até que eu, naturalmente, perguntei: “Olá, Dona Otília! Tudo bem?”.
E é assim que essa história começa.
(.)
1994 - A MALHA ASFÁLTICA
Ainda olhando a casa em nossa frente, Dona Otília começou a explanar suas divagações: “Bruno, você se lembra quando o Beto vinha nesse lote pegar lenha pra fogueira da quadrilha do bairro? Você devia ter uns 10, 12 anos e vivia naquela sua bicicletinha, correndo pra cima e pra baixo deslumbrado com o asfalto. Todo ano, ele e os rapazes fechavam a rua com palha e madeira. Eles nunca mais quiseram festejar depois que o Hélio morreu (...)” [continua em 02/11]