domingo, 13 de maio de 2012

Páprica I - Ela não sabia dizer não (2ª parte)


DIVINA MÃE

A você que é mãe, seja de criação, adoção, afeto ou gestação. Você tem a sua própria história, seu cenário pessoal, mas seja quem for, você é uma mãe Divina e essas palavras são para você.



“Estou cansada.”

Descanse, Divina. A guerra acabou. Você lutou muitas batalhas, sobreviveu a torturas sem fim. Desbravou caminhos inimagináveis e carrega, sob a sua pele, as cicatrizes de sua alma.

A vida às vezes parece injusta, eu sei. Quantas vezes você desistiu de algo para ajudar alguém? Quantas lembranças se passam em sua cabeça ao se recordar dos momentos em que ficou calada para evitar uma discussão? Quantas vezes você olha ao seu redor e tenta entender o que você fez para merecer isso? Por que os outros conseguem e você não? Quantas vezes você sorriu para disfarçar o sentimento torturante de humilhação? Quantas vezes você se deitou no sofá, cansada com o dia de amanhã?

“ Quem é você?”

Você se entristece, Divina. Chora de frente ao espelho, tentando se lembrar daquela mulher que você já foi um dia. Onde está aquele brilho no olhar? Para onde foi aquela menina que tinha certeza de que teria muitas conquistas? Tantos sonhos, esperanças e lembranças que se foram em meio à luta. Sabe por que a jovem sonhadora morreu, Divina? Porque ela era fraca! Sabe por que você surgiu no lugar daquela moça que achava que podia tudo? Porque você, Divina, é forte! 

Quando você anda pelas ruas, milhares de pensamentos, metas de conquistas e superação permeiam sua mente, enquanto a insegurança e o medo correm em suas veias e enfraquecem seus braços e pernas e você se cala, pois acredita que não adianta mais. Você não sabe, mas, enquanto isso, aqueles que a veem passar pensam: “Como eu queria ser como ela e ter essa confiança!”.

Você conseguiu. A luta incessante acabou por um motivo muito simples. Você já venceu! Olhe ao seu redor e perceba as suas conquistas. Veja o que você construiu. Olhe daqui, longe de tudo, para que possa enxergar. Observe com cuidado e respeito o mundo que gira ao seu redor. Admire e ame o reino que você criou. Saboreie o que plantou durante todos esses anos.

“Onde eu estou?”

Rainha guerreira. Você está onde ainda não é o seu lugar. Você, mãe, deve estar ao lado de seus filhos. Eles precisam de você, mãe Divina. Acorde!

“Eu não entendo...”

Acorde!

_ Mãe, você consegue me ouvir? Aperta minha mão se estiver me ouvindo. Ela apertou, doutor!
_ Ela vai ficar boa, mas precisa descansar.
_ Certo... estou indo! Ouviu mãe, você vai voltar pra mim. Eu vou ficar ali na sala ao lado. Estou aqui pertinho. Descansa mais um pouco e assim que a senhora estiver mais forte, a gente vai pra casa. 

“Casa...”

Páprica.

BC



Páprica

Páprica (1ª parte)


domingo, 1 de abril de 2012

Páprica I - Ela não sabia dizer não (1ª parte)


Dizem que Divina estava lavando as roupas de sua família naquela tarde de sábado, ouvindo a música Nossa Senhora de Roberto Carlos. Lavava e cantava e sonhava. Mulher sonhadora. Torcia a roupa e ia longe, quando a dor veio, a tontura, a fraqueza nos joelhos. Ela se sentou no chão em frente ao tanque, sem forças para gritar, pensando em onde estaria o seu menino. A mão vai ao peito.
_ Deus, que dor.
Sua cadela vem até ela. Cães sentem quando algo está errado. A cachorrinha começa a latir, talvez clamando por ajuda.

DIVINA
Trinta anos atrás. Era uma quarta-feira.

_ Pai, vai ter uma festa sábado...
_ Fica quieta e segura direito essa escada, menina! Vou acabá caindo daqui se você ficá aí distraída pensando em farra em vez de firmá esse trem direito. Eu podia chamá sua mãe pra segurá calada, mas cê sabe que ela num pode fazê força.
_ Por que o senhor não chama um eletricista? Vai acabar tomando choque.
_ Vou é arrancá esse fio e sentar nas suas perna se você continuá com essa conversa.
_ Tá bom... desculpa! É que o senhor tá sempre arrumando esse fio e todo dia dá mal contato e aí tem que mexer de novo.
_ Ave! Que raio de festa é essa?
_ É só festinha do pessoal aqui da rua na casa da Neire, pai. Não vai ser nada demais.
_ Se não vai ser nada demais, porque é que você qué tanto ir? Aposto que aquele primo dela vai tá lá.
_ Que primo?
_ Ora, aquele moleque, Ivan, filho do Alcides. Se você tivesse falado que ele ia e que não ia ficá perto dele eu até podia pensá no assunto. Agora cê quer me fazer de bobo? Você num vai é em lugar nenhum, menina sonhadora. Vai já pro quarto.

Quinta-feira, na escola.

_ Você vai certeza, não é, Divina?
_ Meu pai não deixou...
_ Ah, nem. Às vezes eu acho que você ainda é aquela meninha roceira que eu gostava de atazanar.
_ E às vezes você ainda é aquela menina cruel que fazia eu não querer vir pra escola. Meu pai só quer cuidar de mim. O que eu vou fazer? Se ele fosse igual ao seu pai e nem soubesse que eu existia eu também não ia me preocupar.
_ Nossa, Divina! Quem é a cruel aqui?
_ Desculpa! É que você me irrita. Se eu não posso ir, eu não posso e pronto.
_ Tudo bem. É que o Ivan vai estar lá. E ele fica o tempo todo perguntando de você.
_ Ele fica?

Sexta-feira, voltando para casa pelo caminho da praça, onde todos os dias se reuniam os garotos do bairro. Ivan sempre entre eles.

_ E aí, Divina! Jóia?
_ Oi, Ivan!
_ Tem tempo que não te vejo por aqui. Tá perdida?
_ Não... estou indo pra casa. Voltando da escola.
_ Mas sua casa fica pro outro lado.
_ Resolvi andar um pouco.
_ Hum... Você vai à festa da Neire amanhã, né?
_ Eu... É que... Sim, eu vou!
_ Ótimo! A gente se vê lá!
Sábado à noite, hora da festa.
_ Boa noite, pai!
_ Nem acabou a novela e cê já vai dormir?
_ Estou com sono.
_ Então vai pra cama. Boa noite, filha.
_ Boa noite, pai. Te amo!

...

_ Já dormiu? Abre aí! Cê precisa segurar a escada. Os fio tão dando curto. Daqui a pouco sua mãe e eu vamo ter que acender vela.
_ Espera pai, não abre!
_ Que maquiagem é essa moleca? Precisa ficá pintada desse jeito pra sonhá?
_ Eu vou à festa, pai! Todas as meninas da minha idade vão. Estou cansada de todo mundo rir da mocinha do interior. Desculpa pai, mas a menina sonhadora aqui não vai ficar segurando escada sábado à noite. Eu estou de saída.
...

Madrugada de domingo, após a festa.

_ Se divertiu na festa, moça? Tava lá dançando enquanto...
_ Mãe, o que meus tios estão fazendo aqui?
_ Filha, vem cá, vem. Me abraça, filha!
_ O que aconteceu, mãe? Cadê meu pai?
_ Seu pai sofreu um acidente, filha. Ele tava arrumando os fio e caiu da escada e bateu a cabeça. Ele tá lá no quarto com o doutor. Mas ele não tá bem não, filha. Meu velho não tá bem não.
_ Não chora mãe! Eu vou lá ver o pai!
_ Se pelo menos alguém tivesse segurado a escada.
...

O pai faleceu seis dias depois.
Ela nunca mais disse não.

Páprica.

BC



NOTA: PÁPRICA foi um texto escrito por mim há um ano e publicado no blog em 17 de abril de 2011, o qual pode ser lido aqui: http://bcmaoli.blogspot.com.br/2011/04/paprica.html. O trabalho mostra um momento na vida de seis personagens que vivem suas vidas sentindo que falta algo. Eles sentem um vazio no peito, uma falta de tempero em suas vidas. Reler um texto meses ou anos depois, mesmo que de minha autoria, faz com que eu tenha outra interpretação da ideia passada, como se não fosse minha. Hoje acho que a essência do que fora abordado em Páprica pode ser melhor explorada e é essa a idéia dessa nova seqüência. Em analogia a outras mídias, pode-se entender que o primeiro Páprica foi o episódio piloto que agora se tornou uma serie focada na vida dos personagens em diferentes fases de sua maturidade e a busca por algo que eles ainda não sabem bem o que é.

domingo, 18 de março de 2012

EU QUERO LER VOCÊ


E aí, tudo bem? Sente-se e, por favor, fique à vontade. É melhor eu ir direto ao assunto. Chamei você aqui porque eu preciso de sua ajuda. Tenho uma teoria e preciso que confie em mim para que eu possa comprová-la. Acredito que todos nós somos textos. Não apenas as pessoas, mas tudo o que existe. Tudo é um texto a ser lido e, como sabe, eu tenho essa obsessão. Eu preciso ler as coisas.

Ler algo não é apenas transformar um objeto em palavras. Um texto só é realmente lido se for sentido. Cada tipo de texto apresenta um determinado estilo de estruturação, e é preciso compreender esse estilo para que seja possível senti-lo. Alguns chamam de tipo, forma, gênero do texto, mas não estamos aqui para discutir regras gramaticais, então, para facilitar nosso experimento, chamaremos de tipologia textual. Espécimes da natureza que não tiveram a intervenção do ser humano geralmente são fáceis de serem lidos, pois se tratam, em sua maioria, de poemas e textos descritivos, uma ou outra fábula. No entanto, há textos que só consigo ler e dissecar após um estudo sobre sua forma. Adapto-me ao texto e então eu consigo identificar e decifrar os códigos. O problema a ser solucionado com a comprovação dessa teoria é que há textos que eu não consigo sentir. Não consigo decodificar sua essência, e isto está levando embora o que resta de minha sanidade. É aí que você entra. Eu vou me abrir para você, para que possa confiar em mim. A partir daí você conseguirá ler quem eu sou. Em troca eu quero que me ajude a identificar sua tipologia textual e me permita a maior intimidade que Deus pode nos autorizar. Permita-me ler você.

Algumas pessoas se limitam a sua própria tipologia textual e a ler aqueles que são de mesma tipologia, tendo problemas de convívio com quem é de um gênero diferente, sem entender o real e simples motivo da falta de sintonia. Ao entender isso, será possível ler o próximo e ter uma compreensão mais íntima da pessoa. Para esclarecer, vou dar um exemplo de tipos de textos que alguns colegas que trabalham comigo no cartório demonstraram ser. Era horário de almoço e estávamos todos andando na calçada em direção a um restaurante, quando presenciamos uma velhinha sendo atropelada ao atravessar a rua. Cada um teve uma reação diferente. Um colega, cuja tipologia textual é uma novela, explicava o acontecido para todos que ali chegavam, de modo detalhado e demorado, com excesso de acontecimentos narrados e todo um enredo para a situação da pobre senhora; outro, um texto lírico, viu ali o fim trágico de uma senhora que por anos procurou ir ao Fórum para resolver um problema que, para ela, não teve o fim esperado; uma colega, um texto informativo, viu apenas que a senhora não atravessou na faixa, mas que o motorista errou pelo excesso de velocidade e os herdeiros poderiam "entrar com processo de indenização"; o último colega presente, uma epopéia, por revolta, disse que se pudesse daria uma surra no motorista que a atropelou (não, não daria surra nenhuma... ele é uma epopéia). Foi quando percebi que todos éramos tipos diferentes de texto e cada um viu o que foi capaz de ver conforme o texto que é. A partir da descoberta da tipologia textual de meus colegas, eu pude vê-los de um modo que antes não era possível. Por mais amigos que fôssemos, apenas após eu entender os textos que eles são, é que eu pude lê-los com clareza e só assim pude entendê-los melhor e admirá-los ainda mais. São textos lindos.

Definir o tipo de texto que você é não é algo que se faz superficialmente, julgando o modo que se leva a vida ou sua profissão. Se seguirmos por esse caminho, minha vida não é um texto, é um filme Sessão da Tarde dos anos 80. O maior clichê piegas. Já quanto à minha tipologia textual, não estou tão certo agora. Com base nesse pensamento, analisarei minha tipologia por exclusão. Não me identifico com o poema, porque vejo poema como a poesia por si mesma. Existe poesia em todas as coisas. Existe poesia em uma árvore dançando com o vento; nas asas de uma mosca que voa pela cozinha; no caminho brilhante da gosma deixada por uma lesma; no canto dos pássaros e em patos no lago. Há poesia na novela, no conto, na crônica, no romance. O poema é a poesia traduzida e codificada. Definitivamente eu não sou um poema. Complicado me identificar. Todos mudamos com as experiências diárias. Eu sei que eu mudei. Creio que é por isso que é mais fácil definirmos quem éramos, do que quem somos agora. Então, vamos lá! Eu já fui um conto, uma fábula, um texto meramente informativo, uma novela onde a cada mudança de tipologia textual, eu continuava alternando entre os personagens que fui um dia, os quais muitas vezes entraram em conflito entre si e terminei como um romance, com um núcleo principal bem definido e outras tramas menores que se desenvolviam simultaneamente. Como as tramas tiveram uma conclusão satisfatória, o texto que eu sou mudou. Os vários personagens, com suas tipologias textuais específicas, foram eliminando-se um a um, até que sobrasse o que foi batizado de “O pequeno”, e assim eu me tornei uma crônica. É isso! Eu sou uma crônica!

Agora você já tem a chave para ler o texto que eu sou. Apesar da impressão estranha semelhante a me despir e permitir que veja minha nudez, digo a você que é uma sensação satisfatória. Facilitar o caminho para que eu seja lido em minha essência é algo mais prazeroso do que imaginei a princípio. E agora? O que acha? Está tudo bem? Confortável? Sim? Que bom, pois é a sua vez! Olhe ao seu redor. Selecione algo, alguém ou alguma coisa que aconteceu hoje. Pense no que não sai de sua cabeça a ponto de mudar seu comportamento. Concentre-se nisso. O que essa coisa lhe faz pensar? Leia a coisa. Extraia o texto e analise o modo como você se sente. Assim você poderá se conhecer melhor. É hora de se despir. Mostre-me a sua tipologia textual! Eu quero ler você!



Que tipo de texto você é? Responda nos comentários, de forma direta se preferir, do tipo marcando “x”!
eu sou:
( ) um conto;
( ) uma novela;
( ) uma crônica;
( ) um romance;
( ) um poema;
( ) um cordel;
( ) uma fábula;
( ) outro tipo de texto: ____________

BC


terça-feira, 6 de março de 2012

TEM UMA GALINHA EM MEU QUINTAL

Hoje eu acordei com o cacarejar de uma galinha. Abri a janela para o ritual matinal de desejar bom dia ao dia e lá estava ela. Uma galinha em meu quintal. Olhei para ela e ela olhou para mim. Continuei olhando meio que sem acreditar e ela me ignorou e começou a bicar o chão. Algum vizinho era o dono do bicho, o que significava que ela não podia ficar ali. O que queria dizer que eu tinha que encontrar uma solução. Pensei nas cenas possíveis para resolver o caso. Todas tendiam a eu procurando nas casas vizinhas pelo dono do animal e nós dois cercando uma galinha dando olés e eu imaginando que o cacarejar era ela gargalhando da minha cara. Não. Sempre há um modo mais fácil. Abri o portão, deixei aberto e esperei a danada sair. Fechei o portão e pronto, bateu um peso na consciência.

A galinha tinha dono e poderia fazer falta na refeição de uma família. Logo calculei que fiz algo bom e salvei sua vida, e ri pensando em quem vai encontrá-la e se sentir esperto correndo atrás dela no meio da rua. E percebi como me distraio com uma facilidade incrível e perco meu tempo analisando baboseiras.

A dispersão de pensamentos vem com a falta de objetivos. Eu vivia em função de determinada situação que não existe mais. Desde então eu fiquei sem função. Precisava de um novo foco. O episódio da galinha me fez perceber como vivo em uma realidade extremamente simples e como é isso que eu quero para o resto da minha vida. Simplicidade é a minha meta. Essa galinha me fez um bem maior do que ela jamais irá imaginar.


O recomeço.


Bruno

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O PEQUENO GIRASSOL

(um outro ponto de vista sobre a história do rio sereno)

Eu fiquei esperando parar de chover. Parou e eu fui pro quintal. Eu gosto de marrom e verde. Não só de marrom e nem só de verde, mas de marrom e verde. O quintal é marrom e verde e eu gosto do quintal. Só que não tava muito marrom nem muito verde, tava tudo meio amarelado. Eu resolvi plantar uma semente de girassol no jardim que meu avô mandou eu dar pros pássaros, só que uma semente eu quis plantar. Quando ele ficar grande também vai ficar amarelo. Minha roupa, a cor da parede e até a cara da minha mãe tava meio amarela. Aí minha mãe falou que era porque tinha um arco-íris bem grande e tudo fica meio amarelado por causa do brilho do tesouro que fica no fim do arco-íris. Antes era verde e marrom e misturou com azul, vermelho e mais um monte de cor e as coisas ficavam douradas. E eu resolvi que ia achar esse tesouro.

Sempre que chovia eu corria pra fora pra procurar o arco-íris e ir atrás do tesouro que brilhava tanto. Aí eu corri e procurei e procurei, e cheguei bem perto algumas vezes, mas toda vez o arco-íris desaparecia.

Um dia apareceu um arco-íris bem grandão. Ia de um lado até o outro. Esse foi mais atrevido e deixou eu chegar bem pertinho. Eu tinha certeza que tava quase encostando nele, porque tudo tava dourado demais, quando o danado começou a sumir. Aí eu entendi que tava na ponta errada e o tesouro ficava é do outro lado, mas não dava mais tempo e eu tinha que esperar chover de novo.

E todo mundo que sabia que eu tava nessa busca vinha me contar como é o tesouro e antes eu não sabia como era o que eu tava procurando, mas se todo mundo sabe do jeito que o tesouro é, eu já sabia o que tinha que procurar e tinha que ser mais rápido ainda. Aí eu cansei de esperar e fui mais esperto e antes mesmo do arco-íris aparecer eu já tava lá na chuva. E aí eu encontrei o que eu achei que era o tesouro porque era do jeito que tinham me falado. E eu tava feliz, mas bem quando eu pensei que tava tudo certo e eu fui correndo contar pra minha mãe o que eu tinha encontrado, meu avô foi pro rio. Acho que ele foi nadar. Aí eu percebi que o que eu achei que fosse o tesouro não era um tesouro nada. Eu chamei ele pra voltar, mas ele falou que lá é legal. Eu também quero ir pro rio porque aqui tá muito quente, mas parece que eu tenho que aprender a nadar primeiro pra eu poder ir também e eu não sei nadar e aí eu chorei. E eu corri e corri. Aí eu pulei. Eu pulo bem longe. E corri ainda mais rápido que tudo. Eu sou muito rápido. E fiquei acordado até bem tarde porque eu quis. Eu fiquei com medo, mas eu ouvi meu avô falando baixinho no meu ouvido, quando ele foi me cobrir de noite, que ele tá me vigiando lá de onde ele tá e, já que ele tá me vigiando, então eu tenho que me comportar e tenho que ser um bom menino e ir pra escola e comer direitinho e dormir cedo. E eu não vou mais chorar. E não vou mais ficar procurando tesouro nenhum.

Parou de chover um bom tempo e tava muito quente, aí eu peguei a mangueira e fui regar as plantas no quintal, que é verde e marrom. E eu sentei ali no chão do quintal e fiquei regando. Quando eu vi, o que era marrom e verde foi ficando meio dourado e aí eu olhei pra água. Eu não sei o que eu fiz, mas apareceu um arco-íris muito bonito. E aí eu tirei uma foto pra mostrar pra vocês. E adivinha o que tava bem no fim do arco-íris ainda bem pequenininho?


O girassol!

Bruno

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O VELHO E O PEQUENO NO RIO SERENO

(em memória de meu avô e amigo, Seu Tião Faustino)


(O RIO SERENO)

(O VELHO)

(O PEQUENO)


O velho estava sentado na margem do rio há três semanas.

Olhar fixo na correnteza.

O movimento hipnótico o atraia.

Resolveu ser cauteloso e colocou apenas os pés na água.

Temperatura agradável.

A lama no fundo massageando os pés.

A leveza que há tempos procurava.

O pequeno chamava.

Ao longe, ouvia seu nome e então voltava.

Voltava e se sentava.

Sentava-se olhando a água.



Vezes antes o velho olhou para o rio.

Olhou e voltou para a cabana.

Em certa ocasião, ele resolveu que precisava mergulhar.

Ouviu dizer que lá é permitido ver amigos que estão nas águas,

cujas vozes insistiam em não se calar à noite.

O pequeno pediu que ficasse em terra.

Pelo pequeno, o velho resolveu esperar o rio o chamar.

Aguentou a dor pelo pequeno.

Agora as águas do rio estavam mais belas.

O velho se senta na beira do rio



A fumaça saindo pela chaminé da casinha de madeira.

O almoço está pronto.

O pequeno se vira para o rio o mais próximo que pode e sussurra,

avisando que é hora de se sentar à mesa.

Ele quer voltar para casa.

Olha para o rio.

Ele se senta e olha o rio.

Na hora do jantar, o pequeno sussurra um juramento:

“Em terra não haverá solidão.

Em terra se reunirão os irmãos.

Sono e despertar,

com sentimento de união!”

“Ora, pequeno, é o que tanto rogo!

Não se preocupe, estou voltando!

Prepare o fogo logo.

Pois a fome está me...

Onde está você, pequeno?”

“Aqui!”

“Para onde foram as cores?

Para onde foi ar, que não vem a mim?

De

onde

vieram

as dores?

Necessito beber das águas do rio!”

“O rio leva a um lugar incerto e ao fim.”

O rio leva para um lugar certo e sem fim.

O ritmo intermitente do som das águas,

insistem em chamar a atenção para a história de uma vida.

A vida e o rio.

Ele volta e coloca os pés no rio.

“Para onde foram as dores?”

A dor pertence à terra. Não há dor em nosso rio.

O sol. O céu. O ar tão fino e puro. Os insetos.

A vegetação ao redor. Tudo tão colorido.

“De onde vieram as cores?”

As cores vieram do rio.

Novamente ele se senta.

O velho se senta e olha o rio.




Ao fim do entardecer de mais um dia, o pequeno,

novamente aos sussurros,

lembra o velho de sua importante função como carregador do lampião,

iluminando o caminho para os que seguiam atrás.

“Tu és o novo carregador do lampião, pequeno.

Iluminando a passagem de quem vem à frente.”

“Mas e os perigos do caminho?

E o meu refúgio?”

“Valores que criamos.

O único refúgio é o rio.”

“O único refúgio é o rio...”

O pequeno percebeu que era preciso libertá-lo.

Ele quer o rio, mas se preocupa com o pequeno.

Ele tenta voltar e novamente aguentar a dor.

“Não tenho mais medo!

Você tem?”

“Sim, eu tenho medo!

Todavia, não se preocupe mais.

Você cumpriu muito bem a sua missão.

Pelo senhor eu tenho forças para segurar o lampião!”

É hora de aceitar o rio.

Mesmo àquela distância era possível entender.

“Lá está o sentido das coisas.”

O pequeno respirou fundo e sussurrou:

“Talvez seja hora de aceitar o rio.”

O velho olhou para trás uma última vez:

“Hora de aceitar o rio.”




No rio¸ amigos e família o saúdam.

Tudo o que o velho desejou.

“Estou com aqueles que me amam.”

A fartura de benevolência que tanto esperou.

“Com licença...”

“Venha! Entre!

Seja bem-vindo às minhas águas.”

Cadeira vazia.

“Estou com você, pequeno!

E estarei com você no rio sereno.”

O pequeno ouve o sussurro e sorri:

“Estarei com o senhor no rio sereno.”



BC Maoli

sábado, 14 de janeiro de 2012

PRA LONGE DE TUDO


Sentei-me em um lugar mais isolado, mas eu sei que eles querem conversar comigo. Daqui posso vê-los despejando entreolhares em minha direção enquanto concluem sua conversa de praxe para o momento. Penso em me levantar e simplesmente sair andando, mas sou adulto e, como tal, tenho obrigações sociais. Obrigações sociais: coisas que você tem que fazer para agradar a quem não se importa com você. A conversa que eles sentem que precisam ter comigo também é uma obrigação social. É aí que eu fecho os olhos. Fecho apertando bem forte e então respiro o mais fundo possível. Aperto tanto os olhos que começo a ver pequenos pontos de luz que aos poucos vão formando imagens. Geralmente é nesse momento que eu vejo uma espécie de túnel. Túnel não, acho que o nome é vórtice. Sinto-me como num sonho onde eu me liberto e as regras da física não se aplicam. O aqui não é mais aqui e o agora não é mais agora. Então eu vou para bem longe. Vou pra longe de tudo. E eu não sinto mais coisa alguma, nem boa nem má.

Abro os olhos e eles já estão ao meu lado. Eu os vejo, mas não os enxergo. Não assimilo seus rostos. Não guardo informações desnecessárias. Eles falam comigo como previsto. Pelos olhares lânguidos, é a tal fala social que tanto quis evitar. Posso ouvir os sons que saem de suas bocas, mas não consigo entender o que dizem. Longe de tudo, onde estou, não sou capaz de decodificar as palavras. Pela obrigação social, eu procuro olhar em seus olhos. Olhar nos olhos é o básico para que o interlocutor se sinta importante. Pela obrigação social, eu respondo algo genérico, com um tom especial baseado no que imagino que estejam falando. Acho que balanço a cabeça e digo algo como “é verdade... desse jeito...”. Satisfeitos, um deles coloca a mão em meu ombro e se levanta¸ levando quem o acompanhava consigo e, graças a Deus, estou sozinho novamente.

Longe de tudo, eu o procuro. “Achei!”. Focalizo e me aproximo de onde ele está. Toco em sua cabeça e trago-o aqui onde não há mais ninguém além de nós dois. Ninguém para se excitar ouvindo-me me despedir. Até mesmo um tolo imaturo e egoísta, como eu, sabe a hora de deixar ir. “Obrigado!”. A gratidão mais pura. Saio de meu refúgio mental para devolvê-lo ao mundo. A jornada individual se torna ainda mais solitária. O vazio que carrego em segredo se expande. Fecho os olhos e me jogo novamente no vórtice.

É tão tranqüilo... Talvez um dia eu possa ficar aqui para sempre para que minha alma cansada também possa, finalmente, encontrar a paz.


Bruno

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

SUA MÃE VAI MORRER (Interlúdio)

Era uma vez na U.T.I.
  • Uma crônica baseada, infelizmente, em fatos reais.

Entro e vou falar com a recepcionista:
_ Quando liberam a entrada para visitas?
_ Quinze horas. Eles organizam lá em cima e me avisam por telefone para que eu possa liberar vocês.
_ Então... Muito obrigado!
Resolvo me sentar em uma das cadeiras enquanto aguardo a hora indicada. Uma senhora de cabelo grisalho bem curto olha para mim aparentando curiosidade em saber quem é o motivo de eu estar ali ou qualquer outro assunto que sirva para iniciar uma conversa. Olho para a janela.
Após entrar, me viro para o lado e lá está a senhorinha fazendo massagem nos pés de um senhor inconsciente que ocupa o leito à esquerda:
_ E a moça que estava aqui ao lado? – perguntou à enfermeira.
_ Teve alta ontem à noite – respondeu e foi para o outro lado da sala.
Ela me olha como quem tem necessidade de fazer algo que auxilie alguém, qualquer coisa, mas a sensação de impotência a destrói por dentro. Resolvo ampará-la e a deixo me ajudar:
_ Isso faz bem? – pergunto “ingenuamente”.
Foi apenas isso que falei e seus olhos chorosos ganharam brilho:
_ É muito bom pra ele. Você segura assim e faz assim, ta vendo?
Se sentir útil parece acalmá-la.
Eu começo a massagem e ela consegue sorrir.
...

No outro dia, lá está ela fazendo massagem e olhando para mim:
_ Quem é o seu doente? Seu pai, seu avô?
Meu doente? Penso, mas não falo. Ela não precisa de um chato nessa fase triste de sua vida. Respondo e devolvo a pergunta:
_ E o seu doente?
_ Meu marido – diz passando a mão em seu rosto.
Talvez estivessem até brigados, mas a dor une as pessoas. Ela precisa se sentir útil para se sentir bem, e eu preciso analisar banalidades como se fossem coisas importantes, como minha válvula de escape.
...

Mais um dia e ela passa um líquido no rosto do doente dela. A princípio achei que era para hidratar, já que a pele do coitado estava ressecada, mas percebi que era água benta, ou consagrada, ou algo do tipo. Era fé. Meu doente acredita que passar ímã no corpo melhora a circulação e ameniza dores. Após anos rindo de tal crendice popular, estou aqui passando o imã sobre sua perna. Não questiono mais se faz sentido ou não. Ele acredita. É só o que importa no momento. É fé.
Nos encontramos na saída:
_ O que o médico disse sobre seu doente? – ela pergunta.
Ofereço carona, mas ela diz que está esperando alguém para buscá-la.
...

Ontem a senhorinha não estava lá fazendo a massagem ou passando água com fé. Uma criança ocupava o leito ao lado.
_ E o colega? – pergunto à enfermeira.
_ Faleceu hoje às seis e meia da manhã.
...

Hoje, na recepção, um rapaz entra e vai até a garota no balcão:
_ Quando liberam a entrada para visitas?
_ Quinze horas. Eles organizam lá em cima e me avisam por telefone para que eu possa liberar vocês.
_ Então... Muito obrigado!

E a vida segue.

Maoli

sábado, 24 de dezembro de 2011

A MINHA GORDURA LOCALIZADA

*"Reprodução" na íntegra de uma resposta a duas simples perguntas:

“O que mais me aflige, BC? Como? Qual pensamento vem à minha mente assim que ouço essa pergunta? A resposta é: a minha gordura localizada! Qual resolução de ano novo não cumprida me irrita constantemente? A resposta para sua pergunta é: essa bendita gordura localizada!

E o tanto de promessa que fiz? No fim do ano passado prometi a mim mesma que iria me preparar pra uma promoção ou um emprego melhor. Prometi que reformaria minha casa e que faria uma horta no quintal e um lindo jardim. Prometi que cuidaria mais pra ter um casamento feliz. Prometi que faria aquela dieta milagrosa especial e até o natal desse ano eu iria ao clube e desfilaria de biquíni me sentindo o máximo por ter perdido minha gordura localizada.

Um ano depois, é frustrante pensar que, por mais que eu tenha me preparado, não vejo perspectivas no trabalho; que por mais que eu e meu marido tenhamos tentado juntar dinheiro, minha casa está ainda pior; que por mais que eu tenha me dedicado, o meu casamento está assim... Acho que é desse tipo de pensamento que vem a famosa depressão de fim de ano. Dizem que muitos suicídios acontecem na época do natal, sabia? É triste! E onde fica a coitada da minha gordura perto de tudo isso? Não é porque minha gordura ainda está aqui que ela me aflige, mas porque ela me lembra de uma coisa muito importante: Eu!

Me dediquei tanto a atingir minhas “metas essenciais” e o escambau que não me lembrei do prazer de fazer uma caminhada olhando a natureza. Minha vida é tão corrida que não posso dedicar um tempinho, talvez menos de uma hora uns três dias da semana, pra mim? Não posso esquecer dos problemas e me permitir o prazer de ser fútil nem em um domingo e relaxar em um fim de semana do mês me bronzeando? Posso sim! Oras, mesmo com minha querida gordura localizada eu sou gostosa! Será que o espírito natalino está me fazendo ser boazinha comigo mesma? Pensa, como ter um feliz natal sem me esbaldar na ceia? Se estaremos comemorando o nascimento de Cristo lá em casa, eu me dou permissão para comer até bolo de aniversário! E um próspero ano novo passando o reveillon regulando comida? Eu preciso alimentar minha querida Úlcy (a úlcera mais bem tratada do mundo). Como alguém de dieta pode desejar “Boas Festas”? Se o Papai Noel pode ser gordinho, porque eu não posso ter uma gordurinha leve na cintura?

Toda vez que olho pra esse pneuzão saindo pela calça jeans eu me irrito. Não pela gordurinha. Isso é só um detalhe. Eu me irrito porque com minhas resoluções de ano novo eu criei barreiras, verdadeiras condições para ser feliz, e, sempre que vejo minha gordura localizada, me lembro do tempo que perdi enquanto podia ter vivido. Me lembro de negar convites para viagens com nossos amigos, por vergonha do meu corpo. Festas e churrascos... Me lembro de ter dormido frustrada porque a balança não acusa nenhuma evolução, mesmo com toda aquela salada. Quando olho pra minha gordura me lembro de ficar tensa quando ia tirar a roupa para meu marido em vez de ter orgulho do meu corpo, pois eu sei que sou gostosa! Me lembro de ir trabalhar chateada e sem ânimo por causa dessa luta inalcançável, o que, obviamente, fez diminuir meu rendimento. Como quero ser promovida se já chego ao trabalho estressada?

Me lembro de outros requisitos a serem alcançados para que eu pudesse ser feliz que coloquei na minha vida, como uma casa linda e o casamento perfeito. Minha casa é linda do jeito que está! É um lar! Precisa sim de reforma, mas é aconchegante e repleta de amor. E quanto ao casamento? Agora entendo que meu marido não tem que se transformar em outra pessoa para se tornar companheiro. Precisamos aceitar nossos defeitos, perdoar nossos erros e entender que somos, acima de tudo, amigos e parceiros que se uniram para, juntos, seguir o caminho da vida superando dificuldades. E se não der certo mesmo com toda essa compreensão, eu troco de marido, oras! Eu sou gostosa!

Vou viver mais em vez de fazer planos. Ser feliz e todas as outras conquistas será conseqüência!

Tenhamos todos um NATAL MUUUITO FELIZ e um ANO NOVO CHEIO DE SAÚDE E PROSPERIDADE!!!

Minha lista de resoluções para o ano novo: Vou desligar o celular e fazer caminhada alguns dias na semana. E minha gordura localizada irá comigo ao clube sempre que ela quiser, graças a Deus!”

· A autora suplicou para não ser identificada, pois representa todas as mulheres, e dependendo da interpretação representa a todos nós


Bruno Machado

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A ESTRADA NOSTÁLGICA

(Para ouvir parte da trilha sonora que de certa forma “ilustra” o texto, aperte o play)


Ao chegar ao centro de uma casa de espelhos em um parque antigo, vários reflexos de diferentes formas mostram a verdadeira Luzia. Uma é alta e magra, outra é pequena e gordinha, outra é mediana e mediana e tantas outras que não se destacavam por motivos pessoais.

Ao enfiar o dedo no nariz e retirar uma formiga, sua cabeça finalmente parou de doer. Ela correu e correu e sua sombra não parava de segui-la. Olhou para trás e a encarou. A sombra, amedrontada, se escondeu no escuro e a deixou em paz.

Cansada, sentou-se na grama fria e ouviu um chamado: - psiu! – olhou de um lado a outro: - psiu! – olhou para trás e para frente: - psiu! – para baixo e para cima e achou o que procurava. Uma estrela estava chamando-a para a apresentação. A pequena Luzia, ansiosa, abraçou suas perninhas e logo começou o espetáculo. Ficou ali assistindo empolgada enquanto seus risinhos contagiantes se mesclavam a cantoria das estrelas.

Com ânimo renovado, ela aplaudiu dando pequenos pulos e agradeceu aos céus pelo cuidado.

Foi passear no bosque procurando sua formiga para terem uma conversa definitiva. Ela se deitou sobre as folhas secas e pediu desculpas. Aceitando-as, a formiga voltou e entrou em seu ouvido.

Sentindo-se plena novamente, ela andou até o lago, curiosa para descobrir quem ela poderia se tornar. Olhou com nostalgia a água gélida e cristalina e ao perceber que estava de volta, seu reflexo magro e alto sorriu. Luzia mergulhou porque queria tocar no fundo e quando subiu estava ensolarado e já era mulher.

A mulher chamada Luzia caminhou pela trilha do bosque e encontrou a estrada há tempos construída. Cansada pelos dias que virão, podia ver claramente o caminho que iria percorrer de onde estava até a linha do horizonte. Desde uma acentuada curva a esquerda até uma curva leve à direita e então sempre em frente. Durante o caminho, tendo o cuidado constante de se manter longe das calçadas, um único pensamento veio à sua mente: “Quando foi que tudo se tornou tão complicado?”.


Maoli

domingo, 27 de novembro de 2011

A VARA AMADA - I

“Dentro das Regras, nossas próprias regras.”

(Maoli)


Tenho falado pouco do trabalho em cartório, apesar de ser o título deste espaço de publicação de textos. Falei do cartório em “Pássaros que latem” (o cão foi baseado neste que vos fala, os pássaros que aprenderam a latir foram baseados na primeira geração de minha equipe e a mãe-natureza é Deus, com seus planos ordenados em situações, apenas aparentemente, caóticas). Falei do cartório também em “Tatuagens e outras marcas que ficam” (a última tatuagem foi um problema de trabalho superado de modo tão natural que chega a ser estranho), e no fim de “Lembranças do futuro do pretérito” (foi um texto sobre um futuro próximo ao calcular o tal problema no cartório que gerou a última tatuagem). Mas além de ter falado pouco, falei por meio de analogias que só são passíveis de entendimento por mim e por quem fez parte das histórias em meu ambiente de trabalho. Agora pretendo dedicar um espaço próprio para falar com certa freqüência sobre a escrivania judicial (o cartório de uma das Varas de Assistência de Goiânia) à qual tenho me dedicado de corpo e alma, literalmente. Mas porque essa dedicação?

Descobri que escrever me faz bem quando eu ainda estudava em uma escolinha chamada Gente Importante. Deveria ser obrigatório escolas infantis terem nomes idiotas. Para uma criança, isso é muito legal! “Gente Importante”. Com a chegada da fase adulta, os textos de minha autoria foram diminuindo na mesma proporção que o brilho em meus olhos. Parecia uma perda de tempo, já que eu poderia estar estudando, ou fazendo algo que “gente importante” faz. Publicar livros depende da elaboração de um trabalho excelente e contatos. Nunca considerei algum texto meu excelente, e nunca tive contatos, então, criei este espaço para publicação na internet, o qual ficou parado por um ano. Aos poucos, as experiências passadas em uma certa escrivania judicial do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, foram renovando minha necessidade de alinhar pensamentos e sentir paz interior. Assim renasceu a necessidade de expressar o que penso e sinto através de palavras escritas. O que quero dizer é que o trabalho no cartório me inspira e foram as experiências vividas nesse ambiente de sentimentos e sensações diversas que me devolveram a vontade de escrever. O título correto deste blog seria: “é porque trabalho em cartório que sou escritor”.

Todos já ouviram a frase açucarada: “Trabalhe com o que você gosta de fazer e nunca terá que trabalhar”. Essa é uma das maiores baboseiras passadas de boca-a-boca através das gerações. Você pode fazer o que ama, porém se tiver responsabilidades, metas, prazos e qualquer forma de pressão, é trabalho. Por isso jogar bola profissionalmente é trabalho, o qual dizem, cansativo e desgastante (com remuneração absurda, mas é). Talvez o pensamento correto seja mais algo como “trabalhe com o que você gosta de fazer e irá se sentir satisfeito mesmo com todo o cansaço”. Trabalhar em uma escrivania de assistência judiciária é algo muito cansativo, porém, extremamente prazeroso, vez que amo o que eu faço.

Não, não... Meu amor é pelo Direito. Pelo cartório, tenho paixão.

Como todo objeto de paixão, o cartório me deixa angustiado e empolgado; ameniza o tédio que sinto constantemente; me força a amadurecer como pessoa ; me faz chorar; me faz sorrir; me faz perder o sono. O trabalho no fórum me faz dormir o sono dos anjos, como vovó já dizia.

Pensando bem, talvez minha relação com o cartório não seja apenas paixão. Creio que seja amor. Só o amor justifica tudo o que passamos juntos.

E o que mais gosto do trabalho no cartório: toda semana tem uma história para contar. E eu vou contar!

Bruno da 6ª

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

SUA MÃE VAI MORRER

ENSAIO SOBRE O PESSIMISMO-POSITIVO


Muito se fala sobre a busca da felicidade e o pensamento positivo como o segredo do universo. O que não contam é que essa busca resulta sempre em frustração, vez que expectativas exageradas levam a decepções e mágoas. Entendemos ser a chamada felicidade nada mais do que os raros momentos que Deus nos permite entre uma desgraça e outra em nossas vidas. A busca que todos têm como necessidade vital não deve ser por uma felicidade abstrata. Deve ser, sim, a busca por uma sensação de paz através de uma vida harmoniosa e tranqüila, eliminando a tristeza após a difícil tarefa de enxergar o mundo sem o colorido da fantasia. Sem esse trabalho de nova visão das coisas, torna-se comum confundir felicidade com empolgação. A falsa felicidade nessas situações é passageira e dependente de situações de conquista. Verdadeiramente feliz é aquele que sabe dos males e mazelas do mundo e ainda consegue se levantar para lutar. Defendemos aqui a tese do saudável pessimismo, chamado doravante de pessimismo-positivo.

Viver o pessimismo-positivo nada mais é que abrir mão da ilusão de vida segura e distante do caos que nos é imposta pela sociedade (devido a necessidade do ser humano de tornar a arte de lidar com as situações do cotidiano um pouco mais simples), aceitando, dessa forma, o lado menos prepotente das coisas. Significa ver o mundo de um modo mais realista, mais cru e, por vezes, mais cruel. O que não deve ser confundido com tristeza. Trata-se apenas de limpar o terreno (mente e alma) para que sentimentos puros, e até mesmo a tal felicidade, possam surgir naturalmente.

Abraça a idéia do pessimismo-positivo quem compreende que ter a auto-estima destruída em alguma fase da vida, uma pitada de depressão relativamente superada e dúvidas sobre seu valor e seu lugar no mundo são fatores essenciais para a construção da personalidade. Entender isso é mais difícil para os mais novos, pois as atuais regras de convivência e necessidade de projeção de suas vidas em redes sociais, aparentemente resultaram em uma verdadeira imbecialização de toda uma geração. Pessoas nascidas nos anos noventa (principalmente e, por isso, aqui usadas como exemplo) formam uma geração perdida, salvo, é claro, raríssimas exceções. Exceções essas que experimentaram ter sua auto-estima destruída em alguma fase da vida, uma pitada de depressão relativamente superada e dúvidas sobre seu valor e lugar no mundo, o que nos parece ser a verdadeira fórmula do despertar.

É de conhecimento comum que pessoas que sofreram alguma experiência dolorosa e superaram a dor, conseguindo seguir em frente, enxergam o mundo com olhar mais maduro (claro que algumas, mesmo sofrendo, continuam presas à ilusão). Não é necessário sofrer se você conseguir ter empatia o suficiente para sentir a dor de outra pessoa e assim se desenvolver a ponto de despertar para o mundo cru. Após o despertar, começa a busca pela paz, e consequentemente, o encontro da felicidade.

Para esclarecer melhor a idéia de empatia de dor, analisemos sua vida de trás para frente, começando pelo fim e concluindo no tempo presente. Que tal essa sugestão de seqüência decrescente provável de fases de sua vida? Você vai morrer! Sim, você vai... Sinto muito! Agora como será sua morte? Será que vai doer? A dor lacerante no peito. Talvez seja como um desmaio: Sentirá falta de forças... Apenas vontade de dormir em horário que não o de costume. A cabeça batendo na pia do banheiro. Algo menos agradável de ser lembrado no paraíso: a cabeça no vaso sanitário enquanto se limpava. Um mal súbito pós-defecação parece até um gracejo divino, mas vai que acontece. O objetivo do ensaio é auxiliar a traçar planos e ajudar a moldar a postura com a qual você irá seguir seu caminho. Deixo claro: ESTE TEXTO NÃO TEM O OBJETIVO DE INDUZIR AO SUICÍDIO. Deixe para morrer de causas naturais. Vai que com o tempo você percebe que não é completamente inútil. Claro que o mais provável é que você seja, afinal, sua grande preocupação é conseguir um emprego legal para comprar coisas (muitas) das quais não necessita, pagar contas apenas para sobreviver com um mínimo de dignidade e comer. Comer, dormir, talvez se exibir e defecar são as razões da sua vida.

Como fica combinado que ninguém aqui vai planejar a própria morte, vamos seguir para outra constatação: você verá sua mãe morta! Meus pêsames. Talvez você morra primeiro, ou morram juntos em um acidente de carro, mas a primeira alternativa é a mais provável. Quando ela falecer, lembranças de anos passados irão se aflorar e fazer com que perceba que brigar por ela não ter feito a comida que pediu, ou por algum problema familiar patético, ou porque não deixou você dormir fora só porque ela sabia que você ia passar a noite transando com algum idiota, acaba perdendo um pouco o sentido, não acha? É muito bonito e deprimente (vez que algo estúpido), ver familiares se aproximar na hora da dor, pedir perdão e se lamentar por não terem aproveitado mais. A dor virá. Dor é a regra. Não serei piegas e falarei algo como “abrace papai e mamãe e diga eu amo vocês enquanto pode”. Só não queira se sentir leve falando coisas bonitas e juras de amor além da vida para sua mãe quando ela já estiver no leito de um hospital, sem consciência, com uma sonda de alimentos atravessando sua barriga. Torne-se um bom filho agora, ou seja mau até o fim. Você vai sofrer por ver sua mãe sentir dor e não poderá fazer mais nada do que já está fazendo para ajudá-la. Antes disso, você vai ter alguém. Você vai perder alguém... Se aceitar o desafio, você mesmo pode preencher as reticências.

Essa idéia aparentemente estranha tem se mostrado um verdadeiro mapa para quem está se sentindo perdido. A bússola se desenvolverá dentro de você com o tempo, não se preocupe.

Maoli


(SUA MÃE VAI MORRER - Capítulo II - O sorriso da alma)

Previsão de publicação: 01.12.2011

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A VERDADEIRA MAGIA



Nesse dia das bruxas, repasso aqui uma receita rápida para a preparação de qualquer feitiço básico.

Como eu disse em mandruvás alados, na busca em algo para crer, estudei um pouco acerca de espiritismo, budismo, hinduismo, protestantismo, Santo Daime e... Wicca, o estudo do que é chamado vulgarmente de bruxaria, e posso contar algo que descobri nesse percurso: Não é por você, nem para você, que o mundo gira. Quando você morrer, algumas pessoas sentirão sua falta, mas logo se adaptarão e elas, assim como o resto do mundo, irão continuar suas vidas, mesmo sem os seus dramas particulares e suas convicções e ideologias pessoais "tão importantes". Ter plena consciência disso é a primeira metade da base para a preparação mental necessária para que se consiga conjurar qualquer feitiço e manipular uma pequena magia. A outra metade restante é querer de verdade, sem qualquer razão para peso na consciência. Desejar com pureza, sabendo que ninguém será prejudicado no caminho. Nesse momento relembro aqui a célebre frase de conhecimento popular: “Quando você deseja realmente alguma coisa, todo o universo conspira a seu favor”. Poucas pessoas sabem, mas essa crença, que pode ser compreendida como qualquer tipo de fé, é a base para a magia pura.

Vamos agora analisar o essencial de qualquer ensinamento de magia popular: preparação do ambiente, vestuário, material para a elaboração do feitiço e o principal, as falas a serem conjuradas.

Toda receita que encontrar que venha a ensinar essas coisas sem sentido, leia por curiosidade (qualquer leitura pode ser interessante) e depois ignore, pois não passa de baboseira.

A chamada Magia é simplesmente se integrar à natureza em sua essência, respeitando-a ao aceitar que não somos nada perante essa força, entender seu ritmo e tentar se adequar para obter o equilíbrio desejado. Tudo se trata apenas disso: a busca pelo equilíbrio.

A frase tradicional de halloween dita pelas crianças em frente às casas, “doces ou travessuras”, fantasiadas de demônios, representa na tradição Celta o que pode ser compreendido como forças da natureza dizendo: “me agrade que eu te agrado, ou me desagrade e sua vida se tornará uma bagunça”.

A verdadeira receita da magia pura é: Agrade a vida!

Se você quer saúde, deseje que alguém doente se cure.

Se quer amor, deseje que alguém triste fique feliz.

Se quer dinheiro, deseje que alguém consiga comprar algo de que necessite.

Se quer respeito, deseje que alguém seja respeitado.

E, quando possível, não apenas mentalize, mas faça algo!

Pode parecer piegas, mas realmente funciona. Unindo a primeira metade da base para a preparação mental, destruindo sua idéia superficial de ego e limpando a mente de ideologias e angústias banais, com a segunda metade, o desejo concentrado, você observará estranhas coincidências acontecendo em prol de seu objetivo. Desapego e foco. É o mesmo princípio bíblico que diz: Dá e receberás.

Desejar algo a outra pessoa e se mover em busca da concretização do desejo, faz com que desejem e façam de volta.

Essa é a verdadeira magia, ou fé, ou como quer que queira chamar o que pode de fato mudar a vida de alguém e consequentemente a sua.


B. C.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

VIDAS EM GOIÂNIA LESTE - Histórias dentro da História (01)

PRELÚDIO (do que um dia será um livro – publicação quinzenal)

Era manhã de domingo quando ao voltar para casa me deparei com Dona Otília, antiga moradora do fim da rua, parada, olhando para uma casa recém construída em um dos últimos lotes baldios do bairro, aparentando ver muito mais do que uma residência. Ao passar por ela, a velha senhora me encarou por milênios de segundos até que eu, naturalmente, perguntei: “Olá, Dona Otília! Tudo bem?”.

E é assim que essa história começa.

(.)


1994 - A MALHA ASFÁLTICA

Ainda olhando a casa em nossa frente, Dona Otília começou a explanar suas divagações: “Bruno, você se lembra quando o Beto vinha nesse lote pegar lenha pra fogueira da quadrilha do bairro? Você devia ter uns 10, 12 anos e vivia naquela sua bicicletinha, correndo pra cima e pra baixo deslumbrado com o asfalto. Todo ano, ele e os rapazes fechavam a rua com palha e madeira. Eles nunca mais quiseram festejar depois que o Hélio morreu (...)” [continua em 02/11]

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A SUA RAZÃO DE SER


Há muito e muito tempo atrás, em um estojo azul, localizado no canto superior direito de uma mesa de estudos muito distante, uma longa e interessante discussão cortou o esperado silêncio noturno. O motivo: a borracha resolveu que não iria mais apagar.
(...)
A borracha bradou desesperada:
_ Estou decidida! Eu irei buscar uma nova razão para minha existência. Venha comigo, lápis! Vamos escolher nosso caminho. Sua razão de ser é escrever e sempre que você a exerce eu sou gasta e logo chegarei ao fim e irei morrer. Eu não quero morrer!
O lápis, com sua postura sempre tranqüila e voz serena, prosseguiu seus esforços para acalmar sua amiga:
_ Você tem um papel muito importante no mundo, borracha! É por você existir que os humanos podem errar. Se você não mais apagar, erros jamais serão corrigidos. Não haverá volta! Mudará minha característica principal, a da liberdade de pensamentos, pois possibilito escrever tudo o que vier à mente para que depois você apague. Sem você, eu serei praticamente uma caneta.
Do lado de fora do estojo, ouvindo aquela interessante conversa, o papel se meteu na contenda:
_Não se compare à caneta, lápis! Ela nunca ousou questionar a si mesma. Aprendeu o básico do que tinha para aprender e viverá assim, satisfeita com sua soberba trivial. Talvez ela venha a questionar sua aleteia quando sua tinta estiver secando ou se esgotando. Só então ela irá pensar em tudo o que escreveu. Só então irá pensar nas marcas eternas que deixou em mim.
O papel continuou a expor seu raciocínio:
_ Pequena borracha, ouça bem. Um objeto depende da razão de ser do outro. Quando a caneta escreve em mim, eu me torno um documento para ser consultado, lido e relido, mesmo que com o passar dos anos eu me torne amarelado. Quando o lápis escreve em mim, os pensamentos livres, nem sempre, mas em sua maioria, são esboços, rabiscos, textos e desenhos não satisfeitos, não definidos, não perfeitos. Você é parte de tudo isso borracha. Sua razão de ser está ligada ao lápis de uma forma muito bonita. Vocês, borracha e lápis, formam uma dupla inseparável há gerações. O lápis sempre estará próximo de você. Sua essência, na verdade, influencia até mesmo o meu propósito. Em certo momento, após tanto apagarem o que fora transcrito em mim, eu também fico gasto, deixo de ser bonito e sem marcas. E o que acontece comigo? Consideram que perdi minha razão de ser, me dobram por todos os lados, me dão o formato de uma bola e me jogam em cestas de lixo, sendo minha derradeira honrosa e humilhante função providenciar um breve momento de diversão.
A borracha ouvia a tudo atentamente.
O papel conclui:
_ Sim, você está certa! Quanto mais o lápis escreve, mais você se consome, porém, borracha, quanto mais você se gasta, mais ele repete a escrita e gasta a si mesmo. Como conseqüência, de tempos em tempos o apontador exerce sua razão de ser e aponta o lápis, tornando-o cada vez menor...
O lápis, estranhando toda aquela simpatia, resolveu agradecer ao papel pelos sábios conselhos e retomar a conversa de modo mais particular:
_ Obrigado, papel! O senhor sempre nos auxilia com suas sábias palavras, com sua experiência adquirida pelas constantes escritas que tem recebido ao longo de sua existência. Obrigado!
O papel entendendo a indireta, limitou-se a retornar para sua pasta.
Olhando com carinho para a borracha, o lápis ponderou:
_ Você está apenas nervosa. Pense no que lhe falei e saberá o que fazer. Confio em você, minha melhor amiga. Continue seu caminho, fazendo o que faz de melhor!
E com um sorriso carinhoso, do fundo de seu coração, declarou:
_ Eu preciso de você!
Sem mais argumentos, com os olhos cheios de lágrimas, a borracha virou para o lápis e disse:
_ Sim, lápis! Agora eu entendo. Não é como indivíduos que nossa razão de ser tem sentido. Nós não podemos seguir o caminho que ansiamos, em respeito à razão de ser do objeto próximo, pois estamos interligados. Temos nossas características, habilidades e virtudes pessoais, mas é como parte do estojo que uma aleteia se encaixa na outra e, juntos, somos uma única e completa razão de ser. Muito obrigada por me fazer entender. Obrigada, querido lápis!
Assim, cada material, satisfeito com sua vida, se alojou em seu devido lugar e a paz voltou a reinar naquele estojo.
Naquela madrugada, o lápis transcreveu para o papel um sonho que o humano, dono do estojo, acabara de ter e, exausto, se encostou, distraído e só, no canto esquerdo da mesa, onde, longe dos outros materiais, ele descansou. Subitamente, sua ponta foi encoberta por um apontador que começou a girar, girar e girar com toda a sua energia. O lápis se debateu no início, mas logo perdeu suas forças e deitou-se inerte. A borracha olhou fixamente para o lápis. Um olhar ao mesmo tempo triste e decidido e, mais uma vez, respirando fundo, pegou firme o apontador e tornou a girar. E continuou girando, até que o que antes era um lápis com desígnio próprio, com a sua razão de ser, se transformou em uma pequena porção de lascas de madeira.
Após dar uma última olhada na imensidão daquele quarto, a pequenina borracha, sorrateiramente, se jogou na gaveta da mesa onde tudo ocorreu, e lá, perdida no fundo escuro de seu novo lar, em meio a tantos papéis e outros objetos há tempos esquecidos, ela viveu feliz para sempre.
FIM
BC
P.S.: A moral da história fica a critério do leitor.