Dias que antecedem aniversário sempre trazem reflexão, assim como o final do ano. Estranhamente, em véspera de mais um aniversário, não me flagro pensando no futuro, mas sim nas coisas que eu gostava e que a vida adulta me fez esquecer.
Eu adorava desenhar. Dizia que ia ser desenhista. Talvez por isso eu sinta que está faltando algo. O que fiz? Desenhei!
Um desenho meio torto, um sorriso meio correto!
Esta aí:
sábado, 27 de julho de 2013
Apenas um estalo - 1
Nossa vida é uma viagem que não acontece como planejamos. A paisagem está estranha e nos sentimos perdidos. Abrimos mão de noites de sono, dias, anos, saúde, amizades, parceiros, oportunidades, tentando descobrir em que rua deveríamos ter virado nesse mapa idiota que parece estar ao contrário. Tentamos nos acostumar com o lugar onde fomos parar. Tentamos voltar. Tentamos continuar seguindo para ver o que tem no fim da estrada. Provavelmente o erro foi termos planejado um itinerário acreditando que seríamos as mesmas pessoas que fomos um dia, quando colocamos a mochila nas costas. Sente-se na calçada, rasgue a sua antiga lista de metas, respire fundo e comece a rabiscar. Às vezes, precisamos apenas de novos riscos para nos encontrar.
BC
sábado, 29 de junho de 2013
O Forte
Era uma vez, bem lá no interior
Nasceu um menino
Disse a parteira:
“Pra pegar na enxada é muito franzino
Sinto muito, seu Sinhô”
Disse o pai: “Fio meu num vai pra lida. Esse aí vai ser dotô”
O menino foi crescendo
Tomou tiro e jogou bola
Trocou gibis na porta do cinema
Traçou sua vida na escola
Como um dos heróis de faroeste e capa e espada, imaginava a
sua história
“É assim que eu quero ser! Quando eu crescer, vou ter minha
vitória!”
Ainda rapazinho, sua própria vida se tornou sua lavoura
Quando a fantasia de menino foi abandonada
Enfrentou secas e ventos terríveis
O livro era a sua enxada
Pra resistir às intempéries, como os bravos personagens de
sua infância, construiu um forte
E lá, protegido, continuou a semeada, em busca de seu norte
E foi nesse forte que eu nasci
E foi com os valores desse herói que eu fui criado
Com amor e gratidão eu digo
"Meu pai, muito obrigado!"
Sua missão no seu forte foi cumprida
Sua lida, satisfeita
Pode baixar a guarda, descansar
Ficar por conta da colheita
Becê
domingo, 2 de junho de 2013
Eu ouço a música!
Você olha para o lado e nota que alguém está olhando para você. Só então você percebe que estava falando sozinho há pelo menos dez minutos (você calcula isso porque a última lembrança que você tem é do momento em que saiu de casa). Depois disso, sem perceber, você se deslocou mentalmente para outro lugar e outro momento. Um lugar e um momento mais interessantes, pode-se dizer. É algo semelhante a quando você está com fones de ouvido curtindo aquela música que tanto gosta. Você balança a cabeça e até canta de olhos fechados. Nas duas situações, quem está ao seu do diz "está louco", ou então diz "esse aí é bobo demais”.
Para as duas situações,
a resposta a se dar é: "Eu ouço a música!"
quarta-feira, 27 de março de 2013
A FANTÁSTICA TRANSA ENTRE O UNO E O VERSO (ou PORQUE EU ESCREVO)
No
princípio era o Verbo e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Tudo
foi feito por ele e sem ele nada foi feito. Nele havia a vida e a vida era a
luz dos homens. A luz resplandece nas trevas e as trevas não a
compreenderam. (João, Capítulo I – Novo Testamento)
A caneta está bem ali. Ela
fica assim, deitada, olhando para mim. Testando-me.
Pensamentos vêm à mente
e então vou para onde ela está. Os pensamentos se esvaem e ela sorri. Essa
danada sabe como me provocar.
Estou cansado, não
quero nada com ela hoje e finjo que não a vejo.
Mais ideias surgem. Vou
atrás dela, mas ela não está mais lá. Não acredito que teve a ousadia de se
esconder de mim. Novamente com esses joguinhos. Olho atrás de um livro e a
encontro. Pego-a pela tampa e a jogo na mesa, como uma qualquer.
Engraçadinha! Sabemos
como isso irá terminar! Tentei ficar irritado com a brincadeira, mas ela é tão
bonita. Que coisa mais linda!
Eu a pego com carinho.
A posiciono sobre os dedos indicador e médio e pressiono suavemente com o
polegar. Ela se deixa levar e se
entrega. Começo a escrever vagarosamente as frases que já estão em minha mente.
Aos poucos, o mundo ao redor começa a se apagar. Olho para ela, admirado, e
vejo que naquele momento ela está longe de tudo também. Nada mais importa, além
da nossa escrita.
Tiro a caneta das mãos
por um momento e a repouso sobre a mesa. Ela está brilhando. Pego mais uma
folha de papel e devolvo minha atenção a ela.
Eu a seguro com força.
A respiração fica mais profunda. Os dentes, cerrados. As ideias vão surgindo a
cada batida do coração. Aos poucos minha mente fica cada vez mais em branco,
enquanto o papel se preenche. As palavras saem das vísceras e vão para as
pontas dos dedos e de lá para a caneta. Ela não hesita em demonstrar que está
gostando. Movimenta-se com agilidade e a tinta flui mais do que naturalmente.
Palavras são entalhadas,
uma a uma, e em mim não resta mais coisa alguma, além de um ponto final.
Dou um beijo nela e calmamente recoloco sua tampa.
Sento-me ao lado e acendo um cigarro, satisfeito.
Ela se deita, aparentemente morta de cansaço, e
depois olha docemente para mim.
Ao nosso lado, repousa magistralmente o registro de
nossa relação tão intensa e necessária.
Amor e paixão pelo poder da palavra.
Maoli
sexta-feira, 8 de março de 2013
E, DE REPENTE, É SEXTA-FEIRA
Você acorda na manhã de segunda-feira já planejando chegar
cedo ao trabalho para o serviço da semana adiantar. Problemas evitar. Do
estresse se livrar.
A sua música passou.
A ração sobrou.
A cerveja gelou.
O telefone não tocou.
E, de repente, é
sexta-feira.
É segunda-feira e você
abre os olhos pensando em começar a praticar exercícios. Talvez uma leve
caminhada. Dessa semana não passa. Diminuir a barriga. Começar a dieta. Andar
de bicicleta.
A gata pariu.
A velha morreu.
O helicóptero caiu.
O livro que não leu.
E, de repente, é
sexta-feira.
Seu despertador toca e é manhã de segunda-feira.
Você acorda disposto. Essa semana será diferente. Você vai estudar. Para a
entrevista de emprego se preparar.
A bolha estourou.
O sol nasceu.
A boca que se calou.
O carro que você bateu.
E, de repente, é
sexta-feira.
Você nem dormiu direito pensando em tudo o que
deixou para a última hora. É segunda-feira outra vez e você quer se organizar. Do
lixo interno se livrar. A bagunça aí dentro arrumar.
A fumaça subiu.
O incenso acabou.
A dor de cabeça surgiu.
A música do Fantástico soou.
E, de repente, é
sexta-feira.
Você sabe que é segunda-feira
e está cansado de perceber que a vida passa e você não vê. Sem pressa você se
levanta. Não quer nem pensar no que vai fazer. Abre a geladeira e a única preocupação
é decidir o que comer. Saciar a lombriga. Dane-se a barriga.
O galo cantou. O câncer sumiu. A menstruação desceu.
O beija-flor
voltou. A Terra girou. O garoto sorriu. E, de repente, é bom dia. Olha o sol aí de novo.
É terça-feira, afinal!
A vida vem te buscar.
E você vai com ela de
mãos dadas.
Um passo após o outro.
Um dia
de cada vez.
BC
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
EU NUNCA PULEI CARNAVAL
·
* Transcrição daquela conversa boa na varanda com um velhinho querido:
“Eu nunca pulei carnaval.
Mas eu também não falo mal não. Deixa os menino pular.
Eles precisa disso. Ninguém pode ficar pensando nos problema o
tempo todo. Cansa, sabe?
Isso é bom igual pegar uma música e botar pra tocar a tarde
toda. A gente vai lá pra quando era jovem e fica lá um tempão.
Claro que vem os perigo de quem não sabe se divertir e
também os que bota fantasia e não sabe mais quem era antes da festa e fica
assim com as pintura por muitos anos.
O nome é bem isso, não é? Alegoria.
Eu não critico não. É o tal do mal necessário.
Que se fantasiem com sorrisos.
E queira Deus que se confundam fantasia e realidade.
Alegoria no coração das pessoas para que consigam sorrir.”
(Seu Eupídio)
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